Crítica | Westworld 1×10: The Bicameral Mind

Encerrando a primeira temporada de Westworld, The Bicameral Mind nos presenteou com respostas que já suspeitávamos e situações inusitadas. Com direção de Jonathan Nolan, que escreveu todos os episódios da temporada com Lisa Joy, os 90 minutos que encerraram a temporada reforçaram a qualidade mostrada até aqui com muita personalidade e se firmando como uma das grandes (ou  a maior) produções estreantes deste ano.

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Antes de mais nada, é preciso destacar o impecável cuidado com o qual a série foi concebida pela HBO. Estima-se que a temporada completa tenha custado US$ 100 milhões e somente o seu piloto, US$ 25 milhões. Com um viés altamente cinematográfico, figurino, cenografia, fotografia, tudo foi apresentado com imenso esmero, fruto de um trabalho altamente técnico mas que, sem o material humano, seria nada menos que um belo pacote sem conteúdo.

Como vem sendo dito por aqui há várias semanas, Anthony Hopkins, Jeffrey Wright, Ed Harris, Thandie Newton e Evan Rachel Wood encabeçaram uma lista de grandes atuações, beneficiados por um roteiro que na maior parte do tempo cumpriu seu papel acima da média, propondo discussões interessantes, jogando com o público a partir de suas respostas evidentes mas sempre contando com o fator surpresa em cada uma delas. Também é preciso dizer que assim como os roteiristas e diretores envolvidos, quem possui um papel fundamental é Ramin Djawadi. Sua música tornou-se quase um personagem em Westworld, culminando em um excelente trabalho no último ato da temporada.

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Algo que também deve ser enfatizado são as diversas rimas utilizadas ao decorrer da série, sejam estas textuais ou visuais. Frases como “estes prazeres violentos tem fins violentos” marcaram definitivamente Westworld e é comum observarmos momentos que remetem a personagens distintos, como o despertar dos anfitriões chave para o jogo, como Dolores, Maeve e Bernard. Em nenhum momento, a linguagem utilizada jogou contra o espectador ou escondeu por demais certas situações, o que fez com que a trama fosse resolutiva e tivesse um fechamento satisfatório. Sendo assim, achar que o excesso de teorias minaram o brilho da série é no mínimo superficial, perto do que a jornada foi capaz de nos oferecer.

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Mas, precisamos falar de The Bicameral Mind certo?

Até o mais cético dos fãs estava inclinado a aceitar o fato de que William e o Homem de Preto eram a mesma pessoa, assim como as linhas temporais mostradas na série eram realmente distintas. Estávamos no caminho certo, assim como na revelação de Bernard ser um androide, além de ser imagem e semelhança de Arnold. Houve quem desconfiasse da natureza real de Wyatt, atribuindo a mesma a Dolores ou até mesmo Teddy. O labirinto não se mostrou nada espetacular, sendo uma metáfora do despertar consciente sobre aquilo que um anfitrião jamais será. O mais fascinante nisso tudo é que os elementos sempre estiveram lá, quase que como uma trilha a ser seguida e nos levaram a decifrar esses mistérios. As vezes o óbvio nos confunde, como em uma prova de concurso ou até mesmo em decisões na vida.

No entanto, a revelação por trás da narrativa de Ford era a grande carta na manga dos roteiristas que inteligentemente, souberam desviar nossa atenção e se você parar para prestar atenção, este elemento também estava lá. O pleno controle do criador foi esfregado em nossas faces por diversas vezes e quantos de nós não esperávamos uma nova narrativa diferente? Só que nós (ou pelo menos a maioria) presos em meio a um turbilhão de informações não nos atentamos. E isso foi ótimo.

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Quando assumimos que Dolores é a personagem chave para todos os eventos mostrados, percebemos através deste episódio que ela, a partir de suas ações, determinou não somente sua busca pela autoconsciência mas desencadeou uma série de eventos, influenciando demais personagens. Seja com Teddy, Maeve e até mesmo William, a mais antiga anfitriã do parque definiu passado, presente e futuro. Grande catalisadora do que acontece com Arnold, William e por fim Ford, a voz de Arnold era sua voz e o momento em que ela se vê, frente a frente, é um dos melhores e mais emocionantes da temporada.

O que Evan Rachel Wood fez durantes os 10 episódios também é digno de reconhecimento, diga-se. As cenas com William no presente e Teddy foram carregadas de emoção, tão humana quanto crível. Já o momento em que ela confronta William no presente e vira o jogo é espetacular. A expressão no rosto da atriz neste momento, e quando ela se mata na primeira linha do tempo assustam, em contraponto a frágil e doce menina de vestido azul.

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É preciso destacar a atuação de um monstro chamado Anthony Hopkins. Esse é um daqueles casos raros onde você não precisa ver sair da boca do ator uma palavra para entender suas intenções ou temê-lo. Não haveria melhor interpretação para o deus Robert Ford, criador do universo controlado o qual se recusou a  entregar, sem um sacrifício de sangue. Uma rima interessante com o episódio em que Bernard descobre ser um anfitrião. Imagino que tenha sido uma fortuna manter o cache do veterano ator, porém, cada centavo investido pela HBO deve ter sido comemorado.

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Compreender a nova narrativa de Ford nos faz crer que todo o cuidado e cronologia mostrados na série potencializaram nossa experiência como expectador. A jornada pela noite justifica o fato de que em nenhum momento ele tentou frear o Homem de Preto em suas intenções, com os avisos de que o labirinto não era para ele claramente sendo um fator para instigar ainda mais a obsessão do velho William. Personagem que a princípio era movido pelo interesse em despertar os anfitriões, mostrou-se resignado com o fato de ter se libertado de suas ilusões. No fim, foi interessante vê-lo em traje formal e melhor ainda é a maneira como ele recebe o caos do ato final: com plena satisfação. A interpretação de Ed Harris e seu sombrio personagem também merece destaque, diga-se de passagem.

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Até mesmo o arco narrativo de Maeve e toda a facilidade como as coisas aconteceram em determinados momentos, pode ser explicado a partir do momento que soubemos que tudo fazia parte de uma narrativa. Isto não significa que tenha sido uma resolução completamente satisfatória, pois ainda é um pouco inconsistente todas as situações e um Felix anfitrião cairia muito bem nesse contexto. Surpreendente no entanto, foi sua tomada de decisão ao sair do trem. A sequência de maior ação foi marcada por momentos de grande tensão e as cenas de Rodrigo SantoroIngrid Bolsø Berdal, com Hector e Armistice espalhando o terror nas entranhas do parque, colocariam muitos filmes do gênero no chinelo. Desta vez parece que a vigilância pelas câmeras funcionou mas não foi o suficiente. Quem assistiu o filme de 1973 deve ter notado que a sala de comando, se fechando, soou como um baita easter-egg.

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Outro fator que remete ao longa de Michael Crichton é o fato de que a Delos possui outros parques e ambientações. Quando Maeve foge e vê alguns anfitriões com armaduras de Samurai, é possível notar a sigla “SW”. Samuraiworld? Tal fato é corroborado pelo bilhete que Felix entrega a ela, com as coordenadas de onde estaria sua filha: parque 1, setor 15, zona 3.

É lógico que em se tratando de muitas situações em aberto, alguma coisa ou outra passaria. Intencional ou não, a resolução para o sumiço de Elsie foi apresentada nas entrelinhas e não foi algo totalmente conclusivo. Já o chefe de segurança Stubbs, capturado por alguns anfitriões nativos no episódio 9, permaneceu esquecido, pelo menos neste season finale. Ninguém parece tê-lo notado afinal. Já o final atribuído a Logan pareceu um pouco desleixado, até porque sabe-se o que acontece com um anfitrião fora dos limites do parque. A não ser que isto não se aplique aos animais ou na pior das hipóteses, no passado.

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Analisando um todo, o que a série se propõe a discutir vai muito além de um simples despertar das máquinas ou revolução da inteligência artificial. Westworld nos trás um olhar para dentro de nossa própria existência, ao abordar temas como a consciência humana e a dor como centro das nossas motivações. Ao humanizar os androides, a partir do momento em que essas sensações são assimiladas, cabe a nós decidir qual ponto de vista escolher. Seja o dos visitantes, que vão até o parque para encontrar o melhor ou o pior de si, ou dos androides presos em suas narrativas vis e escravizadoras. Além disso, ainda há uma discussão sobre a imersão extremamente realística que uma ficção pode causar a alguém, extrapolando as barreiras entre realidade e encenação.

Seguramente, Westworld se mostrou um investimento que vale a pena. Tanto para a HBO, que conseguiu emplacar uma de suas melhores séries nos últimos anos, quanto para o público, que ao embarcar em uma jornada de pouco mais de 10 horas, tem em mãos entretenimento de qualidade com uma linguagem ousada e extremamente atraente.

Primeira Temporada:
5 estrelas


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...