Crítica | Westworld 1×09: The Well – Tempered Clavier

Na bolsa de apostas dos fãs de Westworld, tão logo se confirmou o fato de que Bernard é um dos anfitriões, ficou mais forte o indício de que este era a imagem e semelhança de Arnold. Porém, não foi o único mistério entregue em The Well-Tempered Clavier, marcado por grandes atuações dramáticas e que encaminhou todos os arcos para uma grande resolução no episódio final.

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Os mistérios apresentados e as pontas soltas deixadas pelos roteiristas foram se acumulando ao longo dos episódios, entretanto, na mesma proporção, um mérito a ser reconhecido é a forma como tudo está sendo amarrado. Outro fato importante é que as pontas soltas deixadas por Johnatan Nolan e Lisa Joy estiveram ali, para as principais questões até agora serem ligadas. Numa rápida checagem por exemplo, temos várias evidências sobre a natureza de Bernard, como quando Ford diz que sabe como sua mente funciona, lá no início. Mais um indício eram os encontros com Dolores, em que Arnold utiliza roupas diferentes das que Bernard utiliza nos bastidores do parque.

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Cada vez mais a condição de deus controlador de Ford vem se intensificando. Fica agora um questionamento, a respeito deste infalível personagem até aqui, que em nenhum momento esteve em perigo. O tempo todo no controle da situação, a tensão foi crescente e o momento em que Bernard acessa o seu histórico, revisitando seu marco zero e momentos do passado que incluem os assassinatos a mando de Ford, foram ótimos. É notável a capacidade de pensamento desenvolvida por este anfitrião, ao ponto dele mesmo ter feito com que seus outros semelhantes não pudessem atacar Ford, implantando uma espécie de dispositivo de segurança. Até o momento, sabe-se que apenas Maeve tem essa premissa, inclusive, quando Ford faz com que Bernard atire em sua própria cabeça, acontece da mesma maneira como ela dita a narrativa em terceira pessoa, no episódio anterior.

“Você invadiu o meu escritório.” – Dr. Robert Ford
“Com todo o respeito, senhor, você invadiu minha mente.” – Bernard

Ainda não se sabe muito sobre a atuação de Arnold no parque, a não ser pelos flashbacks com Dolores, que agora sabemos ser seus. Claro, todo seu histórico apresentado foi descrito por Ford mas Westworld tem se mostrado um celeiro de narradores não confiáveis. Menos mal que no último episódio, tudo tem apontado para que possamos finalmente ver Arnold há 35 anos atrás na primeira linha do tempo mostrada. Por outro lado, cada vez mais estamos nos familiarizando com Bernard em sua condição de anfitrião. A cena de seu ressurgimento é uma das melhores coisas que a série mostrou até aqui, com expressões muito bem interpretadas de ambas as partes. Criador e criatura, e a criação mais perfeita até então, moldado pela intenção de ter alguém que possa servir aos seus próprios interesses, com a mesma genialidade. Chamou atenção o fato de que essa conversa já havia acontecido, o que remete ao fato de que, consciência e personalidade de ambos se pareciam, e nem após a morte Arnold conseguiu convergir suas ideias com Ford.

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Sobre a “morte” de Bernard, será um ato corajoso descartar um personagem tão interessante e abrir mão de Jeffrey Wright. Se Westworld nos disser que nem mesmo uma criatura que pode ser reconstruída tem volta, aumenta a imprevisibilidade da série. Mas será que é o fim da linha para ele? Uma menção também para Clementine, que na expressão fria de Angela Sarafyan nos fez esquecer a prostituta do Mariposa para enxergar uma máquina apenas. É interessante notar também a ruptura com Ford pela forma como Bernard a apresenta, vestida, contrariando a forma como o cientista encara os robôs.

Seguindo os rastros do labirinto, o Homem de Preto juntou as pistas rumo à Escalante, cidade do massacre de Wyatt, a mesma que Dolores vê um tiroteio no episódio passado e que está enterrada no presente, escavada para a nova narrativa de Ford. Impossível não considerar todos esses aspectos sem considerar que no mínimo, as histórias irão se entrelaçar. Antes disso, duas coisas interessantes: a primeira é Angela, que assim como a filha de Lawrence, afirma que o labirinto não é para ele; a segunda é a forma como ele é preso, culminando no aparecimento de Charlotte.

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Neste momento, parece que a série joga com o espectador para nos apresentar um certo senso de realidade. A bela moça de salto e vestido em contraponto ao velho cowboy causa uma estranheza tremenda, assim como assuntos referentes ao conselho e tudo aquilo que ele não parece se interessar mais. A exposição do diálogo mais parece algo para nos colocar a par da importância do MIB para a Delos e seu aporte financeiro que salvou o parque. Estabelece-se ai uma imediata conexão com a linha do tempo de William e Logan, cabe ressaltar. Supondo que William seja o Homem de Preto, sua intenção em dar o aporte financeiro teria sido motivado pelo seu amor por Dolores?

“Com todo o respeito, nem tudo é parte deste jogo.” – Charlotte Hale
“Talvez você não esteja vendo o jogo inteiro” – Homem de Preto

Algo bastante esclarecedor é a admissão de que estamos em períodos distintos para compreendermos a história contada. A partir do momento em que Dolores se vê nas entranhas da Delos, são tantos detalhes a perder de vista que precisariam ser detalhados separadamente. O mais importante é entendermos que toda a jornada que se iniciou no episódio 3 (The Stray) é de fato a mesma que ela faz no presente, acessando suas memórias que ora estão no tempo de Arnold (quando ela entra na igreja), ora no período com William (há 30 anos). Assumindo que Dolores não é uma narradora confiável, a confusão visual que nos é mostrada quando ela está de vestido azul e de pistoleira, passa a ser compreensível. Já o encontro entre Dolores e o Homem de Preto no final remete ao grande clímax que a série pretende mostrar. Ou parte dele. Sabe-se que a nova narrativa de Ford será desenvolvida por ali então não se espantem se o caos de 35 anos atrás, seja parte de mais um plano da mente perturbada de Ford. Você consegue imaginar alguma relação de Dolores com Wyatt? A perspectiva de Teddy (que de novo morre) já se mostrou ser algo nada confiável, então tire suas conclusões.

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Agora precisamos falar de William. A todo instante, o fato do parque consumir as pessoas foi um tema corriqueiro, como quando Logan ameaça Dolores e pela maneira como Will reage. A ideia de levá-la para fora do parque também evidencia isso e a construção da transformação do personagem pareceu um pouco apressada. O que a série vinha mostrando até então era uma mudança gradual e não algo tão drástico. Claro, a cena em que Dolores é cortada é visceral e chocante mas não seria suficiente, dada a personalidade de quem ele era e quem se supõe que ele seja. Não compromete mas a mudança poderia ser mais orgânica. Bom mesmo foi ver Logan numa posição submissa. E uma observação que você certamente notou: o interior de Dolores, com peças e engrenagens, remetendo ao que o Homem de Preto já havia sido mencionada quando ele disse ter aberto um dos anfitriões, que sabemos serem bem mais sintéticos atualmente. Mais uma teoria que se aproxima de resolução, embora seja totalmente inusitado se todos nós estivermos errados.

“Há coisas mais importantes acontecendo do que seus jogos de guerra.” – William

Já estamos tão acostumados a ver Maeve no ambiente interno do parque que chega a ser meio esquisito vê-la no meio da mata, vestida e recrutando Hector, a quem ela pretende convencer e não manipular. Antes porém, quando ela controla Bernard e o coloca em uma posição inferior, reforça o seu novo status de superioridade e de quebra chama Ford de carcereiro e classifica a narrativa deles como ficção hedionda.

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As cenas da cafetina com Hector tem um contexto interessante, onde primeiro ela prevê a narrativa nos capangas do bandido, que culminaria na sua morte. O resto da sequência é bem executada, com uma química que cada vez mais aumenta entre Rodrigo Santoro Thandie Newton. O clímax com o sexo no fogo é uma clara alusão a existência da personagem, com uma existência pautada para transar e morrer. Outra referência a existência dos anfitriões é o cofre vazio, assim como eles, presos em uma narrativa sem conteúdo. Que venha então os anfitriões revoltos, nas estranhas de Westworld.

É inegável que os aspectos técnicos da produção engrandecem demais a série. Foi o primeiro episódio dirigido por Michelle McLaren (Breaking Bad, Game of Thrones) que o faz de forma segura. Foi possível sentir de maneira bem crível os momentos dramáticos, em que pese a rápida transformação de William. A montagem no momento da grande revelação de Bernarnold paralela a jornada de Dolores casou de forma precisa com a música de Ramin Djawadi, que tem feito um ótimo trabalho na série. Aliás, nada de música  pop neste episódio. 

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Mais uma vez tivemos um CGI situando Ford no passado, mas desta vez a câmera não focou no personagem e ele apenas passa por um instante. Além disso, há todo um cuidado com o design de produção que nos dá um panorama nas cenas de Dolores no subsolo, mostrando o antes e depois daquele ambiente. Entretanto, com todos esses atributos, é na força do elenco que se construíram os grandes momentos deste penúltimo episódio. Anthony Hopkins e Jeffrey Wright brilharam como nunca, com destaque para o veterano ator que entregou uma atuação sombria e extremamente convincente. Esses momentos inclusive renderam os melhores diálogos.

A um episódio do fim, pelo rumo que a série tem tomado, provavelmente veremos mais algumas revelações. Em entrevista recente, Jimmi Simpson (William) afirmou que não haverá nenhum gancho para resolução de mistérios desta temporada, fato confirmado pelos produtores e roteiristas. Com meia hora a mais, The Bicameral Mind promete conectar todas as pontas soltas e nos preparar para o distante ano de 2018. Nada mais justo, a propósito…


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...