Crítica | Doutor Estranho

Desde o momento de seu anúncio até a estreia, muita expectativa se criou em torno de Doutor Estranho. Muito por conta de sua premissa totalmente diferente dos demais heróis do Universo Cinematográfico da Marvel. Embora já tivéssemos sido apresentados (ainda que de forma tímida) à magia com a Feiticeira Escarlate, foi com Stephen Strange que a Casa das Ideias abraçou o lado místico de forma consistente.

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Dirigido de forma competente por Scott Derrickson, oriundo do cinema de terror, o filme se apoia em uma narrativa bastante conhecida para os fãs da Marvel, a chamada zona de conforto ou fórmula como muitos preferem dizer. No entanto, não há como negar que o filme funciona, diverte, apresenta o personagem de maneira eficiente, além de preparar o terreno para seu futuro no universo expandido. Outros dois fatores contribuem bastante para que o longa se sobressaia em relação os filmes anteriores: o elenco e os efeitos visuais.

Como é recorrente em toda história de origem do gênero, a estrutura básica nos leva a ver nesta adaptação o personagem sendo conduzido através da mudança completa de seu status quo. O antes aclamado e brilhante neurocirurgião se vê em uma situação completamente oposta, em um lugar desconhecido, em busca de conhecimento do qual se nega a acreditar a princípio. Orientado por um mestre, ele enfrenta um desafio inicial com a negação de sua nova condição que acontece após este conflito, porém, parte com tudo para o derradeiro, mais importante e ameaçador combate. Aqui temos uma típica jornada do herói mas que se diferencia pela forma como é contada e este é um dos grandes méritos do filme.

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A mensagem implícita no longa, além de enfatizar nossa condição mísera como criaturas no universo, fala sobre o crescimento interior a partir de elementos que nos tornam pessoas insensíveis a isso, como o ego, a materialidade e o apego as coisas efêmeras. O intelecto supervalorizado do protagonista não o torna um herói, pelo contrário, quase o transforma em um fracassado. Além disso, temas como causa e efeito e a maneira como percebemos o tempo, as coisas ao nosso redor e as consequências ao manipular as leis naturais também tornam o longa interessante em seu âmago.

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O ator Benedict Cumberbatch dá vida de maneira muito competente ao arrogante neurocirurgião que se torna um mago e tem sua vida totalmente transformada. Este comportamento inicial cai muito bem ao ator que, em 2014 já havia interpretado o também peculiar Alan Turing no ótimo O Jogo da Imitação. Além disso, Cumberbatch tem o dom de roubar a cena e sua presença em tela contribui demais para que, mesmo com um roteiro que não o desafie tanto, possa se destacar de maneira notável. A transformação do personagem, embora seja rápida, se faz necessária e quase não se percebe, nem tanto por uma falha mas sim pelo ritmo do filme, que de forma constante sempre traz algo de novo.

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Quem também encanta é a camaleônica Tilda Swinton, no papel da Anciã. Sua atuação é verdadeira e é de uma sutileza tremenda, trazendo a essência do personagem para a tela. É por meio dela que pudemos ter uma noção deste novo unimultiverso que o filme se propõe a apresentar. Assim, se há uma sensação de que o diálogo expositivo é excessivo por meio das várias e recorrentes explicações, ela logo se dissipa pela necessidade de mostrar algo totalmente novo para a série de filmes até então, sendo um ponto positivo no roteiro.

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O vilão Kaecilius tinha uma premissa interessante e uma atuação muito boa do excelente Mads Mikkelsen. Porém, faltou gás para que pudesse ser visto como uma real ameaça, principalmente no terceiro ato. No início você chega até a temer suas ações e motivações que, algum tempo depois, se mostra vazia e sem um propósito maior. Ainda não foi dessa vez que pudemos ver um grande vilão em um filme da Marvel, embora potencial e competência do ator não faltassem.

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Para cumprir a cota da mocinha da história, a sempre linda Rachel McAdams trás um alívio cômico interessante e atua bem, embora não haja muito tempo de tela para ela. A personagem além de servir aos momentos em que o roteiro estabelece as conveniências necessárias (das quais abstraímos porque estamos assistindo um filme de herói), faz a ponte entre o mundo paralelo e o da magia. Já Mordo (Chiwetel Ejiofor) aparece bem no primeiro ato mas é gradativamente ofuscado pelo desenvolvimento do arco do Doutor Estranho, porém o personagem é bem introduzido e dá para entendermos a motivação que o colocará em um novo rumo no futuro. Quem faz o caminho inverso é Wong (Benedict Wong), que cresce do segundo ato em diante e que fica estabelecido como alguém que irá ajudar Strange, a partir dos eventos ocorridos no final do filme.

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Além de funcionar muito bem como história de origem, Doutor Estranho conecta Strange apenas de forma pontual aos Vingadores, seja pela revelação da Jóia do Infinito ou pela primeira cena pós-créditos com o um dos Vingadores. Desta forma, pode-se dizer que é um filme fechado e uma boa aventura para se assistir. Muito se reclama da necessidade de estabelecer um diálogo com os outro filmes e isso é algo que não é muito notado neste filme. Porém, se tem uma coisa que é recorrente na Marvel são as piadas que ora funcionam bem como escape para as cenas mais tensas, mas em outros momentos fazem parte apenas da necessidade que a fórmula impõe. Dessas ai, algumas você vai até dar uma risada de canto de boca, outras nem isso mas, no geral é o lugar comum que o grande público gosta e quer manter-se.

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Desde o lançamento de Homem de Ferro em 2008, nenhum filme foi capaz de impressionar tanto visualmente quando Doutor Estranho. Não é de se estranhar (sem trocadilhos) que haja uma indicação ao Oscar de melhores efeitos visuais (e uma possível estatueta) pois o filme é de um deleite visual incrível. A propósito, é um dos poucos que valeram a pena pagar um ingresso mais caro para assistir em 3D. As sequências que envolvem o espelhamento das dimensões, as almas se desprendendo dos corpos e os mundos se invertendo são incríveis. A Capa de Levitação e o Olho de Agamoto também estiveram muito bem representados, assim como todos os momentos em que a magia se expressa pelas mãos e gestos de efusivos de Cumberbatch e os demais. Cenários e figurinos também merecem destaque e tecnicamente, o filme está acima da média.

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Há 8 anos atrás não se podia prever que a Marvel chegaria tão longe, fazendo esse estrondoso sucesso com os Vingadores e promovendo heróis nem tão conhecidos do grande público ao seu panteão cinematográfico, como o Homem Formiga e o Pantera Negra. Até mesmo o Homem de Ferro, antes de Robert Downey Jr. não possuía grande prestígio em escala blockbuster. Não é diferente com o Doutor Estranho, uma aposta ousada e que deu certo, nos fazendo crer ainda mais que a grandiosidade da Guerra Infinita não se resumirá a apenas uma quantidade enorme de personagens.

4 estrelas

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...