Crítica | Quarry: 1º Temporada (sem spoilers)

Sem muito alarde, a primeira temporada de Quarry estreou em Setembro nos Estados Unidos pelo canal Cinemax e aqui no Brasil, foi exibida no Maxprime. Ambos são ligados a HBO, o que por si já confere pelo menos em tese, uma certa qualidade a produção. A primeira temporada teve 8 episódios e a season finale foi exibida no dia 31 de Outubro em nosso país.

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A história de Quarry se passa no início da década de 70. Mac Conway (Logan Marshall-Green) é um atirador de elite dos EUA que ao retornar do Vietnã com seu amigo Arthur Solomon (Jamie Hector), se vê desprezado pelo público e ignorado até mesmo por aqueles que ama. Desiludido, ele não consegue sequer arrumar um emprego, devido a rejeição por um suposto massacre envolvendo inocentes vietnamitas, do qual ele e seu pelotão são culpados. Mac é casado com Joni (Jodi Balfour), uma das poucas pessoas que lhe dá apoio depois que ele volta para casa, ao contrário do que acontece com seu pai Lloyd (Skipp Sudduth), curiosamente também veterano de guerra, cuja mulher não aceita o conflito do Vietnã.

Já Arthur é casado com Ruth (Nikki Amuka-Bird) e tem dois filhos. O máximo que ele consegue é um emprego em uma fábrica, bem aquém de suas expectativas. Quando Mac (o mais relutante) e ele são convidados a atuar em um grupo de extermínio que visa eliminar pessoas de conduta duvidosa, o enredo começa a desmembrar várias situações, uma delas bem surpreendente logo no ótimo episódio piloto que tem mais de uma hora de duração. 

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Há um contexto histórico interessantíssimo que envolve a série. Situada no início dos anos 70, a história se passa no Memphis, uma das cidades com maior importância para a música americana e este é um elemento bastante presente em Quarry, com Rock, Soul e Jazz frequentemente sendo utilizados na trama, seja com apresentações de artistas ou como trilha sonora. Além disso, a população da cidade possui uma grande incidência de negros e os anos 60 foram marcados por manifestações pelos seus direitos civis. Marginalizados e oprimidos em muitos casos,  a série retrata isso em determinado momento de forma contundente. É bom lembrar que Martin Luther King Jr. era o principal expoente desse movimento e foi assassinado no Memphis em 1968, o que ainda ecoava com força na região.

A transição da década de 60 para a de 70 foi marcada por avanços no movimento feminista, o que influenciou o comportamento das mulheres em situações que envolvem relacionamento, sexualidade e trabalho, algo também explorado na série através de Joni. Há também, durante os acontecimentos mostrados, uma menção as Olimpíadas de Munique, Alemanha, quando terroristas palestinos assassinaram membros da delegação israelense em meio aos jogos, em 1972. Além disso, um último dado: esse também era ano de eleições presidenciais, vencidas de forma esmagadora  por Richard Nixon contra George McGovern, senador americano que adotava um discurso anti-guerra e era o candidato de Mac.

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A julgar pela sinopse, em um primeiro momento a impressão que você deve ter tido é que a série vai abordar uma série de assassinatos, sem um propósito maior. No entanto, isso não é o que acontece e o que se vê em Quarry é a história de um veterano de guerra impactado pelos horrores do Vietnã, além das consequências que este período trouxe para sua esposa e para o casal em si. Na primeira metade da temporada, isso é abordado de forma bem contundente e as atuações dos atores melhoram ao longo dos episódios, em especial o protagonista que a princípio não se mostra um personagem tão interessante.

Já na segunda parte, há uma subversão de expectativas e as coisas assumem um contorno interessante, sobretudo para Mac. Com personagens imperfeitos e uma história desajustada, as coisas acabam se encaixando de forma natural, com personagens que não foram feitos para ser amados mas que funcionam muito bem. Todos os coadjuvantes e o elenco de apoio também contribuem muito bem para o desenvolvimento da narrativa.

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O personagem de Logan Marshall-Green é caracterizado de forma bem competente. Com um bigode grosseiro, um jeito meio surtado e uma voz quase gutural, Mac parece ter sido concebido para não obter simpatia em um primeiro momento, sendo o retrato de um veterano atormentado pelo Vietnã, sobretudo pelo massacre de Quan Thang. Se por um lado no início, o personagem não inspira muita simpatia, passa a agradar ao longo dos episódios, assim como Joni, uma forte personagem feminina que cresce bastante ao longo da série, mas que ao longo do episódio piloto poderá despertar uma certa antipatia devido aos acontecimentos.

A dinâmica do casal merece destaque, seja pelo estremecimento da relação por conta da guerra, ou pelo amor entre os dois e o senso familiar. Sobretudo por parte de Mac, o que pode levar a uma ligeira comparação com Walter White, em Breaking Bad. São meios diferentes, mas a motivação inicial que é o sustento da família é um dos motes para o que acontece em Quarry.

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Os demais personagens da série além de bem interpretados, instigam o público a querer saber mais sobre eles. O enigmático Corretor (Peter Mullan) é o novo chefe de Mac e quem designa suas missões. Ao longo dos episódios, algumas revelações sobre ele são feitas e uma delas é altamente impactante. As informações sobre ele vem pouco a pouco e todas elas são importantes.

Já o carismático Buddy (Damon Herriman) é um dos melhores funcionários do Corretor e termina temporada de forma totalmente oposta do início. Além de possuir uma questão pessoal que o abala profundamente, sobretudo na década de 70, ele possui um relacionamento bem peculiar com sua mãe Naomi e falando nisso, como é bom ver Ann Dowd (The Leftovers) em cena. Algumas das cenas entre os dois conferem até um certo alívio cômico a densa narrativa da série que mesmo assim, possui um bom ritmo, mesmo com a carga dramática que pesa bastante em alguns momentos. Apenas em um episódio há uma quebra neste andamento, mas que se faz necessário devido aos acontecimentos apresentados.

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Outros personagens ganham importância a medida em que a série avança, como o detetive Tommy Olsen (Josh Randall), que possui mais destaque ao investir em um caso bastante importante para o andamento da série. Já o detetive Verne (Happy Anderson) possui menos tempo em tela e nota-se o comportamentos oposto dos dois. Outra figura corriqueira é Karl (Edoardo Ballerini), homem de confiança do Corretor e que desempenha um papel importante e está presente em momentos chave para o seu chefe. Além disso, há um importante acontecimento que ocorre na família Solomon e confere a um certo destaque a mesma, no entanto a subtrama poderia ter sido um pouco menor.

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Os aspectos técnicos da série chamam atenção pela qualidade. Seguramente, pode-se dizer que assim como sua narrativa, com um consistente roteiro dos também produtores Graham Gordy Michael D. Fuller, visualmente Quarry se destaca e impressiona bastante. A fotografia, com direção do pouco conhecido Pepe Avila del Pino, emula bastante os anos 70 e os ambientes parecem bastante naturais, provocado por uma textura bem suave, com a paleta de cores claras e da terra. Há uma sensação de que não há muita iluminação artificial sendo utilizada, aumentado o efeito de realidade das cenas, sobretudo nos ambientes fechados. Além disso, em determinadas ocasiões, os cenários ficam um pouco mais escuros e isso retrata bem o quão sombrios alguns personagens podem ser.

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O diretor da atração é Greg Yaitanes, que tem no currículo séries como Banshee, House, Lost  e Ray Donovan, entre outras. Ele dirigiu os 8 episódios da temporada, sendo um ponto bastante positivo. Nota-sem uma característica própria com bastante uso do câmera na mão, na grande maioria das cenas. Em especial, há uma cena de ação com um plano sequência espetacular e que seguramente foi uma das melhores já feitas na televisão neste segmento, nos últimos tempos. 

Cabe ressaltar que séries que utilizam este recurso de direção única tem sido bem sucedidas, em termos de narrativa e composição visual: The Knick, também do Cinemax, tem a direção de Steven Soderbergh e True Detective, que em sua primeira temporada teve como diretor Cary Fukunaga, é uma obra prima do gênero de drama investigativo policial. Desta forma, se você aprecia uma dessas séries, vai se encantar com Quarry, e se não conhece, largue tudo o que você está fazendo (até mesmo essa leitura) e vá procurar.

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Ainda não renovada para uma segunda temporada, Quarry possui uma história que consegue ser fechada de forma satisfatória se terminar no episódio 8, mas tem muito a oferecer ainda e seria ótimo ver a continuação dos acontecimentos mostrados. Com poucas derrapadas no ritmo e um tema central que funciona, a série ganha força no seu desenrolar e o saldo final é muito bom. A obra é baseada em uma série de livros publicados por Max Allan Collins e funciona como uma espécie de prequel, com um terreno vasto para ser explorado se o retorno for garantido, principalmente pelas mão competentes de Yaitanes. Se você procura uma história que envolva drama, violência, suspense, fatos históricos e sem personagens certinhos, pode assistir sem decepção.

4 estrelas e meio

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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