Crítica | Luke Cage: 1º Temporada

Desde que o universo televisivo da Marvel em parceria com a Netflix foi criado, não houve uma série com tanta identidade e representatividade como Luke Cage. Traze-lo para o universo expandido de heróis apresentou ao público uma ambientação diferente das predecessoras Demolidor e Jessica Jones, sem deixar de manter tudo interligado, especialidade da casa das ideias em todas as suas mídias.

A série é predominantemente situada no Harlem, bairro que possui uma forte herança cultural afro-americana. É preciso destacar que este é um dos personagens mais ativos, estando muito além de um local apenas. Luke Cage também bebe na fonte do blaxploitation, movimento cinematográfico norte-americano da década de 70, que consistia na realização de filmes por diretores e atores negros, tendo como publico alvo os afro-americanos. Tal movimento influenciou a própria criação do herói nos quadrinhos e anos depois, diretores de cinema como Quentin Tarantino em Jackie Brown (1997). 

Durante os 13 episódios, você também poderá notar um clima que remete bastante a Shaft (1971), grande expoente do gênero, que pulsa musicalmente com uma trilha sonora marcante, o que na série é feito com maestria, sendo um dos pontos altos. Seja nas cenas mais intimistas ou nas ótimas bandas de funk, soul e hip-hop que se apresentam no Harlem´s Paradise, sem dúvidas a música também é um elemento central na trama. Além disso, o crime organizado também é bastante referenciado ao longo da narrativa, mantendo um clima pé no chão para este universo mais sujo e urbano .

Esteticamente, Luke Cage também possui uma identidade bem peculiar, com uma paleta de cores mais quente que as demais séries da Marvel, seja na abertura com destaque para o laranja e principalmente o amarelo, e nas cenas, quando é possível notar este elemento. Pode-se considerar até uma referência ao próprio herói em seu material de origem. Até nas sequências noturnas pelo bairro, a iluminação se encarrega de evidenciar esse aspecto. Além disso, na boate, o vermelho fica em evidência por diversas vezes. Não é a toa que o local abriga atividades criminosas e um assassinato vital para o andamento da série.

No que diz respeito a apresentação do herói, a série começa de forma lenta, trazendo um Luke Cage (Mike Colter) que tenta recomeçar a vida após os eventos ocorridos em Jessica Jones. Em uma jornada dupla de trabalho e sob a tutela de seu mentor Pop (Frankie Faison), somente após o fatídico evento da barbearia é que a ação começou a ganhar mais corpo. A partir daí, surge a revelação do seu passado na prisão, com os experimentos e sua relação com Reva (Parisa Fitz-Henley), a quem finalmente podemos ter mais informações e o ritmo da série melhora notadamente. No entanto, em muitos momentos fica a impressão de que a quantidade  de episódios poderia ser enxugada em prol de uma melhor fluidez. Prova disso são alguns diálogos muito longos e sem muito acréscimo para a trama.

Como é um herói que possui a premissa da indestrutibilidade, pelo menos por meios convencionais como armas de fogo e lutas, fica difícil estabelecer uma ameaça maior para Luke. Com isso, o grande desafio dos roteiristas foi justamente apresentar situações em que ele pudesse estar em perigo, seja por meio de esquemas políticos e de manipulação da opinião pública. No quesito da ação, na maior parte das cenas de combate, a postura passiva assume um papel mais incisivo, pois no embate físico, a diferença seria muito grande.

As coreografias das cenas são simples e não possuem nada demais, porém neste ponto, é coerente com o personagem que utiliza a força somente para arremessar pessoas e quebrar paredes, e não necessariamente possui um treinamento como o Demolidor tem, por exemplo. Quanto a ação, tirando as sequências em Seagate, somente toma corpo de forma mais incisiva quando, a partir do sétimo episódio, a série dá uma grande virada. A atuação de Mike Colter é apenas razoável mas sem comprometer. Muito disso se dá pela caracterização do personagem que é sério e contido, diferente do herói dos quadrinhos.

Os vilões apresentados em Luke Cage não ofereceram uma ameaça consistente de uma maneira geral, muito por conta do roteiro que só apresentou perigo real por uma vez ao herói. Entretanto, as atuações não foram ruins. Cornell “Boca de Algodão” Stokes foi bem interpretado por Mahershala Ali, e sua atuação cresce ao longo dos 7 episódios em que ele atua. Seu desfecho foi bastante anti-climático, justamente no momento em que o personagem ganhava contornos mais interessantes, como uma espécie de rei do crime do Harlem. Em determinado momento, a direção se encarrega de enquadrá-lo justamente coroado, atrás um quadro que havia em sua sala do rapper Notorious B.I.G, também assassinado, em 1997.

Quando Willis “Kid Cascavel” Stryker (Erik LaRay Harvey) assume a posição de antagonismo, aquele verdadeiro temor já citado aparece através das munições Judas, e também por conta da presença em tela do personagem, que possui uma aura ameaçadora. Pena que o conflito familiar, em alguns momentos, ficou um pouco exagerado, mas não incomodou tanto quanto o ato final, com um traje de luta bem mais ou menos e uma luta surreal, em meio ao povo, na rua. Mas pelo menos foi divertido e quadrinhesco. Não sei quanto a vocês, mas a cena lembrou o filme Rocky V, quando o ex-campeão enfrenta seu ex-pupilo, nas ruas da Filadélfia. Seu desfecho deixou um gancho importante, para um possível retorno turbinado no futuro.

Já a vereadora Mariah Dillard (Alfre Woodard) foi quem teve um maior desenvolvimento, seja pelo tempo de tela e a dualidade que as atividades criminosas e legislativas possuem. Da mesma forma que acontece com Cornell, seu destino ao fim dos 13 episódios surpreende e deixa em aberto boas possibilidades para o futuro. Seu personagem só é enfraquecido pela influência excessiva exercida por Shades (Theo Rossi), que orbita ao redor dos vilões como uma figura pouco confiável mas que só mostra sua furtividade num único momento, quando é emboscado por Zip (Jaiden Kaine). Agora, uma questão: por que diabos colocaram a mesma atriz que atuou em Capitão América: Guerra Civil para atuar nesta série? Não lembra? Logo no começo do filme, quando uma mãe confronta Tony Stark sobre o filho que morreu na Batalha de Sokovia, é Alfre Woodard que atua.

Ainda nesse contexto, a apresentação de personagens femininas sendo importantes para a trama é um ponto positivo de Luke Cage.  Misty Knight (Simone Missick) tem uma ótima presença, suas cenas analisando as cenas do crime são divertidas e a expressividade no olhar da atriz é bem marcante. Pena que o roteiro tenha oferecido a Misty uma série de equívocos, fazendo com que ao final da temporada, fique a sensação de que a detetive falhou mais do que acertou. Claire Temple (Rosario Dawson) tem sua melhor participação nas séries da Marvel, já que é um elo de ligação entre os heróis apresentados até agora. A atriz é carismática e aqui, entrega uma atuação mais efetiva, favorecida pelo roteiro e por consequência agrada bastante. 

Outros personagens secundários também foram bem, como o detetive Scarfe (Frank Whaley). Quem assistiu Demolidor, em especial a primeira temporada, já sabe que a polícia neste universo é corrompida de maneira bem acentuada. Mesmo assim, através de uma boa atuação, foi possível se surpreender com a virada que o personagem tem. Também vale uma citação para Karen Pittman como Priscilla Ridley, que apesar do arquétipo de delegada durona, também agrada. Bobby Fish, que na maioria das cenas está jogando xadrez na barbearia, é interpretado por Ron Cephas Jones, que participa da primeira temporada de duas séries atualmente: This Is Us (NBC) e The Get Down, também da Netflix. Além disso, o ator também marcou presença em duas temporadas de Mr. Robot. Uma grata participação para os brasileiros foi a de Sonia Braga, como Soledad, mãe de Claire. Não foram muitas cenas mas há uma contribuição importante, em determinado momento de perigo que Luke enfrenta.

Algo que sempre existe nas séries e filmes da Marvel são as conexões com todo o universo expandido criado. Sendo a quarta série produzida, citações a Jessica Jones e Demolidor são feitas, para que possamos nos lembrar que tudo está interligado. Os filmes também são referenciados, e as vezes soam quase que como didáticas algumas falas sobre os Vingadores e o “incidente” de Nova Iorque. Por mais que exista essa necessidade de manter o público atento a esses easter-eggs, ainda não é muito plausível que um crossover com os heróis urbanos e do cinema aconteçam. E em meio a tantas citações, uma coisa chamou atenção: nenhuma menção ao já Guerra Civil, filme mais recente da Marvel que teve um foco menos fantástico e mais centrado na atuação dos heróis, de acordo com o Tratado de Sokovia. Seria interessante se isso pudesse ser explorado no âmbito político, já que a atuação do herói foi questionada, mas parece que isso ficou esquecido.

Outro mérito da série, em meio a uma enxurrada de produções que entregam a trama toda mastigada em longos e detalhados trailers, foi o fator de imprevisibilidade de acontecimentos como o inesperado fim do Boca de Algodão. Muitos devem ter pensado que este seria o vilão da temporada, a julgar pela divulgação. Além disso, o clima de derrota no fim quando Misty tem toda sua conduta questionada e Luke, ou melhor, Carl Lucas é preso, além de Mariah e Shades obterem a liberdade, também foram finais que conseguiram subverter as expectativas. Isto praticamente abre precedentes para uma próxima temporada, e de quebra, deixa uma brecha para que Matt Murdock possa atuar como advogado, através do elo de ligação entre eles: Claire. Será?

Boa apresentação apenas

Se não foi uma série perfeita, Luke Cage está longe de ser uma decepção. Embora invista em certos clichés e falhe no ritmo em determinados momentos, acerta em questões como representatividade, tem fanservice na medida e trás uma perspectiva bem local para o herói. É uma série boa e funciona como apresentação do personagem mas você não irá lembrar dela como memorável. Agora ficamos no aguardo para Punho de Ferro, que em 2017 será o próximo herói apresentado.

3 estrelas e meia

Para acompanhar as publicações do Quarta Parede, siga as nossas redes sociais ou inscreva-se por e-mail, logo abaixo da área de comentários ou no menu à direita!

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

6 thoughts on “Crítica | Luke Cage: 1º Temporada

Deixe seu comentário: