Crítica | Westworld 1×02: Chestnut

Passado o efeito da grande estreia de Westworld na semana passada, em Chestnut fomos apresentados a novos pontos de vista. Aprofundando a discussão sobre a consciência da inteligência artificial e a índole humana sem pudores, aos poucos estamos percebendo o que este mundo representa de verdade para todos os envolvidos.

Por meio de uma metáfora visual, os visitantes que chegam ao parque constituem os dois tipos mais comuns de gente que por ali andam. Logan (Ben Barnes), vestido de preto, já é iniciado neste mundo, não tem paciência para certas rotinas e possui uma índole agressiva, não parecendo se importar com qualquer censo moral. Isso inclui orgia com androides de ambos os sexos, agressões gratuitas e antecipação de um monte de acontecimentos ainda não vividos por William (Jimmi Simpson), que representa o outro lado da moeda.

Ali, Logan pode ser realmente quem ele deseja ser e isso fica claro, a partir do momento em que essa é a expectativa que ele possui em relação ao cowboy de chapéu branco, que é o seu oposto, em termos de educação e senso moral: tanto em sua recepção por uma sedutora androide, quanto com Clementine (Angela Sarafyan), o ato sexual lhe é oferecido, e ele recusa pois possui alguém real. Presume-se que seja casado, e num primeiro momento isso o distancia de qualquer interesse deste tipo. Até então, esquecer qualquer regra social ainda não faz parte dos planos dele.

– Você é real? Perguntou William
– Se você não pode dizer, por que isso importa? Respondeu Angela, a andróide.

Outro fator interessante na dinâmica desta dupla é que, o ponto de vista que nos foi apresentado inclui a chegada deles ao parque. Ainda não pudemos observar o mundo exterior nos dois episódios, mas sabe-se que a ida ao tecnológico velho oeste acontece por meio de um trem, que os leva até a entrada de Westworld. No estágio final, que é após a caracterização típica, embarcam no já conhecido vagão que vai para a cidade. A reação de William com a paisagem se assemelha muito com a nossa e ele deve ser o mais próximo, em termos de comportamento, do que muitos de nós pensamos e sentimos em relação ao que acontece por ali. Ainda somos recém-iniciados neste mundo e não devemos nos envergonhar de ter sentimentos pelos robôs. Ou pelo menos ficarmos desconfortáveis com algumas situações.

Outro ponto de vista apresentado, agora de um anfitrião, foi o de Maeve. Neste ponto, Jonathan Nolan e Lisa Joy foram certeiros em deixar personagens como Teddy (James Marsden) e Dolores (Evan Rachel Wood) fora do centro da ação. A força do elenco é um dos pontos fortes em Westworld e a atuação de Thandie Newton é excelente neste episódio. Com pouco a dizer na semana passada, aqui Maeve passa por uma série de situações angustiantes e repletos de carga dramática: vai para recall por não fazer seus clientes sentirem desejo, nos revela que os andróides possuem memórias que são programadas como sonhos, além de ter protagonizado uma angustiante sequência em uma mesa de reparos, que inclui entre outras coisas, higiene íntima (duvido que você não tenha pensado nisso no primeiro episódio). Poderia ser uma mesa de operação cirúrgica. Assim como a sala de limpeza emula uma espécie de abatedouro ou depósito. Depende de como você encara. Entretanto, nesses momentos somos puxados para a realidade de que são robôs e parece que a narrativa nos coloca em uma gangorra, a todo instante, para nos importarmos com aqueles que nos identificamos e lembrarmos em seguida que não são pessoas.

Mais cedo, Maeve havia conversado no Saloon sobre seus pesadelos. Ela diz que ao contar de 1 a 3, acorda e eles desaparecem. Só que essa programação parece ter ganho um certo nível de autonomia. Não parece certo que tenha sido um erro dos técnicos que realizavam sua “cirurgia”. Assim como Dolores, ela agora parece ter chegado a um nível maior de consciência. Mais uma vez, durante a sequência, a nudez de uma personagem feminina não pareceu ser gratuita ou sexualizada. Este recurso só evidenciou o horror e a vulnerabilidade que os andróides possuem, nos levando a refletir sobre a ausência de dignidade para com o tratamento com eles: algo normal ou é apenas uma mera relação homem máquina?

O Homem de Preto, que parece ter uma conexão com Maeve, conforme vimos em seu sonho, reaparece trazendo mais questionamentos. Também descobrimos que ele é um visitante antigo ali e uma espécie de cliente VIP, podendo causar o estrago que quiser com aprovação dos engenheiros do parque. Desta vez, ele vai a um ponto ainda não visto da cidade. Depois de libertar um bandido (Lawrence) de um enforcamento (e matar alguns anfitriões como de costume), ele parte para o vilarejo dele e é ali que temos uma das cenas mais enigmáticas. Ele quer saber sobre o labirinto (aquele que arrancou da cabeça de Kissy) e depois de matar mais um bocado de robôs, incluindo a esposa de Lawrence, ele obtêm respostas de sua filha: “O labirinto não é para você”, e complementa: “Siga o arroio de sangue para o lugar onde a serpente põe seus ovos.” Ok, ainda não dá para saber nada sobre isso, mas é interessante notar que o horror da garotinha logo é substituído por uma fala mais robótica, o que novamente nos coloca a par da realidade.

Nos bastidores de Westworld, algumas coisas vão se desenrolando de forma curiosa e duas enigmáticas figuras são as que chamam mais atenção: Bernard (Jeffrey Wright) e o Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins). O primeiro tem um relacionamento amoroso que aparentemente é escondido, com Theresa Cullen (Sidse Babett Knudsen). Outro encontro secreto que ele vem tendo é com Dolores, e é extremamente intrigante quando ela pergunta o que ele tem feito de errado. Com relação a Ford, que descobrimos ir mais ao parque do que pensávamos, sabemos agora que ele tem novos planos para o local. Soou um pouco dispensável a cena com um menino (uma versão mirim dele mesmo) e a serpente, que serviu mais para evidenciar seu complexo de Deus.

Também chama atenção o fato de que, como já vimos, animais também não são de verdade. Será que aquela moscas, que já apareceram algumas vezes é também são invenções ou já embarcamos na paranóia?  Quando Lee Sizemore (Simon Quarterman) foi refutado por Ford em sua ideia de promover mais uma aventura regada a sexo e violência, obervou-se o peso que ele possui nas decisões do parque, e conhecemos também mais o lado arrogante do roteirista, que não deve ter ficado nada satisfeito com o veto. Há uma discordância criativa entre os dois e ao que ao que tudo indica, ganhará contornos maiores para o restante da trama.

 

Sobre Dolores, algo está diferente em suas atitudes. Deu para perceber uma distração recorrente em sua rotina e o seu despertar, no meio da noite para desenterrar uma arma, também fugiu ao script padrão. Será que com o revólver, ela poderá alvejar humanos? Ai cabe outra dúvida: é sua tomada de consciência ou são apenas ordens de uma misteriosa voz? Um pouco dos dois? Outro momento interessante é quando ela encontra Maeve, no início do episódio e diz:

“Estes prazeres violentos, têm fins violentos.”

Sabe-se que algo deu errado no parque há muito tempo. Fica sugerido, tanto em The Original, quanto em Chestnut, que Dolores e Maeve são anfitriãs antigas e isso remete a um acervo imenso com memórias de abusos e violência. Quando isso for desencadeado, por meio da tomada de consciência dos andróides, veremos até que ponto isso irá e quais consequências isso vai gerar. Além de uma grande confusão, é claro.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...