Crítica | Mr. Robot 02×12: eps2.9_pyth0n-pt2.p7z (Season Finale)

Após a estranha e angustiante primeira parte do final da segunda temporada de Mr. Robot, eps2.9_pyth0n-pt2.p7z construiu na base da tensão um bom episódio, mas sem aquele peso que o final da última temporada nos trouxe. Embora tenha respondido algumas questões, alguns mistérios foram deixados para depois, no entanto, houve uma entrega até inesperada de respostas para as indagações que vínhamos fazendo.

Brigando contra si mesmo os 12 episódios da temporada, desta vez Elliot esteve seguro de que estava lidando com mais uma camada de si próprio. Sam Esmail já havia nos dado nesta temporada o plot twist da prisão, além da grande revelação da primeira temporada, portanto agora seria fácil prever que Tyrell seria mais um devaneio insano da mente do protagonista. A subversão dessa expectativa, que inclusive foi acompanhada até de teorias sobre viagem no tempo, foi uma aposta com a qual muitos não contavam mais.

Já se sabia que a personalidade de Mr. Robot tende ao engano e egoísmo, portanto a confissão do assassinato que vimos no episódio 6 nunca foi algo confiável. É surpreendente saber que, durante todo este tempo Tyrell estava vivo, e bem mais próximo do que se poderia imaginar. Mesmo sob a proteção do Dark Army, há uma certa inconsistência em como isso aconteceu e se acontecer um flashback seria muito bem vindo, senão acaba sendo uma grande conveniência de roteiro admitir somente que ele estava vivo e escondido. A quebra da expectativa impacta mas a forma como isso se sustenta é o problema.

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O flashback mostrado no começo foi algo realmente digno de enaltecimento. Na primeira temporada, vimos Mr. Robot (antes da grande revelação) e Tyrell conversando no carro e desta vez, observamos quem era realmente. Quando Rami Malek interpreta a outra versão de seu personagem é bastante crível mas desta vez todos os trejeitos de Christian Slater foram meticulosamente copiados e a cena é muito boa. O mesmo pode-se dizer de Martin Wallström, e o retorno de sua atuação engrandece demais a narrativa, com seu ótimo personagem.

Já a sequência que marca o início da interação entre Elliot e Tyrell no presente é dotada de elementos que poderiam nos levar a crer que tudo era mais um truque de sua própria mente. A canção Hall of Mirrors (Corredor de Espelhos) foi de encontro às nossas expectativas, sendo musicalmente condizente com o tenso momento e com uma letra emblemática, que pode ser uma definição clara sobre o que Elliot é: “O rapaz entrou no salão de espellhos / E descobriu um reflexo de si próprio / mesmo as maiores estrelas descobrem-se a si mesmo no espelho / as vezes ele vê a sua real face / as vezes ele vê um estranho em seu lugar/ Ele se fez a pessoa que queria ser / E mudou para uma nova personalidade.”

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Tyrell esteve durante onze episódios orbitando ao redor de todos. Caçado por Joanna, pelo FBI e fruto de um apagão mental de três dias de Elliot, desta vez sua presença causou até mesmo uma certa estranheza. Não soubemos ainda o que houve entre eles entre o hack da E Corp  e o despertar no estacionamento, no início do episódio 10 da primeira temporada. E o fato de não termos ficado sabendo ainda causa uma certa frustração. Não é somente necessário saber que Tyrell é real, mas como ele se manteve assim é importante também para nós. Estamos nessa com Elliot, definitivamente.

Por outro lado, saber que a Fase 2 do Dark Army estava associada a E Corp não chega a ser uma grande surpresa, mas o que eles pretendem fazer sim. Explodir um prédio, onde todas as informações e papelada da empresa estavam sendo preservadas é algo extremamente ousado e sem precedentes, embora a natureza terrorista do Exército das Sombras já nos tenha sido apresentada. Reparem que o que eles querem executar remete ao que aconteceu no devaneio de Elliot no começo da temporada, enquanto ele se senta a mesa com várias pessoas conhecidas que desfrutam de um agradável momento enquanto um prédio desmorona. Ora, quem planejou isso foi ele mesmo. Então, em algum lugar de sua mente, ali estava a informação, como idealização de seu perfeito universo. Nosso protagonista quer um mundo ideal a partir daquilo que lhe é confortável. Cada vez mais é sobre isso que Mr. Robot trata em sua essência. Desculpe se você acha que a série é sobre tecnologia, sinto dizer que cada vez mais ela se torna uma ferramenta apenas.

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Justo no momento em que Elliot esteve tão seguro, assumindo realmente o controle, seu próprio eu lhe traiu. Fica difícil não se perder em meio a toda essa confusão: Elliot pediu a Tyrell que em caso que qualquer objeção ao plano, qualquer pessoa que fosse, ele impedisse. Na verdade, a idéia do Mr. Robot era fazer um seguro para que no caso de algo dar errado, os planos não se alterassem. As coisas já avançaram muito para uma desistência. Toda a trama dessa personalidade nos deu a certeza de que Elliot dificilmente irá conseguir controlar a situação.

Por outro lado, Angela, agora do lado do Dark Army, diz no fim do episódio que quer ser a primeira pessoa que ele verá quando acordar. Fica implícito que realmente Whiterose a convenceu para trabalhar com eles e acabar com a E Corp, embora não tenhamos visto o que foi dito. Também sabemos que Elliot está vivo, embora não tenhamos noção de sua condição. Mais uma prova de que não é necessário fazer um jogo de morreu ou não morreu com a audiência. Este foi um acerto.

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Se há um ponto neste episódio que precisa ser destacado são as atuações de Grace Gummer e Carly Chaikin. A interação entre as duas foi ótima e ver Darlene e Dom frente a frente rendeu momentos tensos, que fizeram até tornar o que aconteceu com Cisco esquecível. Ah, seus miolos realmente foram estourados e é isso que se soube. Os diálogos entre elas são afiados e bem escritos, com direito a metalinguagem no momento em que Santiago diz que Darlene não está em um programa de TV. Tudo gira em torno de obter informações e uma confissão.

Di Pierro é sutil, se faz de amiga e até consegue ser verdadeira quando diz que não ter vida é o que possibilita tocar o seu trabalho. Através de provas como a câmera utilizada para gravar os vídeos da Fsociety e a máscara, o cerco se fecha de tal forma que sinceramente, não há nada mais o que Darlene possa fazer. Ainda nesse tempo, é revelado que Romero não havia sido assassinado e que sua morte teria sido acidental. Verdade ou não, pelo menos mais uma ponta foi amarrada.

A grande revelação vem então através daquela que foi uma das cenas mais intrigantes da temporada. Antes elas haviam falado sobre ser especial, algo que já havia sido mencionado alguns episódios atrás. Dom convida Darlene para ver um mural onde estavam todos os nomes envolvidos na investigação. Elliot e Tyrell no topo da cadeia certamente foi impactante para Darlene. Será que isso poderá significar uma mais uma virada de lado? Impossível dizer pois embora ela saiba que o irmão tem distúrbios de personalidade, a sociedade secreta dele causou a morte de pessoas e a Fsociety acabou sendo um instrumento manipulável.

Curioso é notar a obstinação das duas. Darlene em derrubar o sistema e Dom em resolver o caso. As duas não medem consequências. Não a toa, a música escolhida para o momento crucial foi Aimee Mann do The Moth: “A traça não se importa quando ela vê a chama / ela pode se queimar, mas está no jogo”. A cena trata de situar Darlene como alguém que, embora não estivesse no topo, era considerada importante peça. Em câmera lenta, ela é observada por todos enquanto caminha para o escritório de Dom. O movimento da filmagem, aliás, a coloca em evidência, corroborando com a conversa e inclusive o fato das pessoas estarem desfocadas em tela enaltece isso.

Alvo de grande questionamento e até mesmo fora da trama central por um bom tempo, quem teve um desfecho anti-climático foi Joanna. Sua presença, como personagem é marcante, a linda atriz Stephanie Corneliussen dá o contraponto ótimo a sombria personagem que cresce bastante, mas sua subtrama não ajudou muito a avançar a narrativa no contexto da temporada. É compreensível que Sam Esmail queria algo que pudesse distrair nossa atenção e de certa forma ver Scott Knowles como a pessoa por trás dos presentes foi um pouco surpreendente, mas não muito impactante pois não há avanço a partir dai. Fica claro que o que ela pretende é incriminá-lo mas nem sob o pretexto de inocentar  Tyrell do assassinato, isso cai bem pois mesmo assim, seu hack ainda é o crime capital. Talvez pudesse ter sido antes de incriminá-lo pelo 09/05 mas agora não teria muito efeito. Portanto, parece ser algo mais pessoal mesmo.

Em que pese todas as motivações, a cena da confissão de Scott e seu pedido de desculpas é carregada de uma boa carga emocional e dramática. Os murros de Scott em Joanna chegam a ser doídos em quem assiste e por um momento você deve ter pensado que ele iria matá-la. E para ele isso teria sido melhor. É até uma surpresa ver que o estrago não foi tão grande. Agora sob o pretexto da agressão, ela irá manipular Derek, seu namorado bobão. Joanna é alguém que definitivamente não se pode mexer. Essa personagem no jogo principal seria ótima e me pergunto se isso acontecerá algum dia.

Assim como na temporada anterior, tivemos uma cena pós-créditos que rima exatamente com a cena em que Whiterose e Philip Price (ausentes neste season finale) protagonizaram. Só que ao invés de estarem em um local luxuoso, Mobley e Trenton, com outros nomes e vivendo uma vida bem longe, conversam sobre algo que ela insiste em fazer. Segundo Trenton, que agora é Tanya, isso pode mudar tudo. O que seria? Talvez uma confissão? Proteção a testemunha. Não por acaso, Leon aparece e na última fala pergunta se eles tem um tempo.

É enigmática a figura do ex-presidiário. Como ele foi recrutado pelo Dark Army, conseguiu ser preso, liberto e sair a tempo de cruzar o país? Tão legal quando intrigante é a cena: um plano sequência visto de cima, que começa em um plano aéreo, que vai desde a chegada do carro até o momento em que ele surge. Sam Esmail, você realmente sabe das coisas.

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A temporada em si não foi tão impactante quanto a irretocável estreia da série. Pisando no freio em prol de um desenvolvimento lento e do conflito psicológico de Elliot consigo mesmo, em sete episódios o personagem se desconstruiu e voltou a estaca zero no fim. Em que pese alguns avanços, embora tardios, outras questões continuam no ar, mas de maneira geral, Mr. Robot ainda pode ser considerada uma das melhores séries em termos que questionamentos e que nos incluem como peça no tabuleiro. Sem contar os bons momentos que foram muitos. A única ressalva é que este ano, ficamos com poucos recursos para jogar. A terceira temporada terá a missão de reconstruir todos os personagens e veremos o que Sam Esmail nos trará, uma vez que ele já sabe como tudo irá terminar.

Nota da Temporada:

4 estrelas

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...