Crítica | Outcast: 1º Temporada

Concebida por Robert Kirkman, o mesmo criador de The Walking Dead e Fear The Walking Dead, Outcast se mostrou um projeto audacioso desde o início, com a segunda temporada renovada antes mesmo do episódio piloto ser lançado. A expectativa também era grande por conta do sucesso que o autor possui em suas obras originais, sobretudo as HQs que basearam uma das séries de TV de maior sucesso comercial da atualidade.

Entretanto, após um ótimo episódio piloto, a série não soube explorar todas as possibilidades e potencial, através de sua narrativa que se mostrou lenta nos episódios subsequentes e presa em algumas subtramas. Ao longo dos quatro episódios seguintes, o ritmo da série caiu notadamente. E isso não deve ser confundido com ação, visto que são os acontecimentos e situações que devem determinar este fator, não sendo então demérito algum que uma trama seja desacelerada. Ainda mais se, em função da narrativa, os diálogos forem necessários e cumpram seu papel para o desenvolvimento de um personagem ou determinada situação. O ritmo volta a ficar mais intenso a partir do sexto episódio From the Shadows It Watches e talvez, se a quantidade destes fosse um pouco menor, haveria uma cadência melhor.

Se por um lado A Darkness Surround Him foi um episódio tenso e incômodo, com terror e suspense na medida exata, o enredo a partir de então mergulhou no universo particular de Kyle Barnes (Patrcick Fugit), ao passo que buscando respostas para o protagonista, alternou sua introspecção com alguns exorcismos no melhor estilo “caso da semana”. Não seria justo afirmar que a atuação de Fugit é ruim. O personagem mostra-se desinteressante na primeira metade, não tanto pelo seu potencial, mas pelo próprio roteiro que não se encarrega de propor um bom desenvolvimento. Isso ocorre pelas situações que são impostas, como exorcismos que pouco acrescentam ao arco principal e a demora da aceitação de sua condição especial. Sim, aqui temos uma jornada do herói, só que um pouco enfadonha em um primeiro momento. Felizmente, a partir do ponto em que Kyle começa a descobrir mais sobre si e a aceitação disso vem, ai temos um crescimento maior do personagem.

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Na segunda metade da temporada, Outcast ganhou força novamente e cresceu até o ápice que ocorre em um inesperado gancho no nono episódio Close to Home, pavimentando o caminho para o final da temporada. Sidney (Brent Spiner), o grande vilão até aqui, se mostrou um personagem interessante, principalmente quando conhecemos um pouco mais de seu passado e suas motivações. Ele realmente passa a se mostrar como uma ameaça após o quinto episódio The Road Before Us e com a revelação da ambiguidade que cerca os demônios de Outcast, o conceito do equilíbrio agrega um contorno interessante para a mitologia da série.

As personagens femininas possuem uma certa complexidade e estranheza. Meg (Wrenn Schmidt), meia irmã de Kyle, quando passa a lidar com os traumas do seu passado, muda gradualmente de comportamento até chegar ao clímax observado no nono episódio. Já Alisson (Kate Lyn Sheil) é misteriosa e com uma apatia profunda, que depois compreendemos através de um chocante flashback que envolve Amber (Madeleine McGraw) que mais tarde no último episódio, desenvolve um inesperado papel central na trama. A transformação que envolve todas elas está associada a figura de Kyle, que é uma espécie de fio condutor de todos os eventos relacionados a sua família.

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Por definição, o termo Outcast pode ser associado a alguém que está banido, exilado ou à margem de algo. Para que possamos compreender o papel de Kyle na trama e o porquê dos demônios atribuírem a ele este nome, não foram apresentadas muitas respostas e isso deverá ser mais desenvolvido na segunda temporada. Sabemos também eles habitam o corpo das pessoas, mas que nem sempre isto significa algo ruim, como mostrado em certo episódio, ao passo que existe uma contradição quando nos lembramos das possessões de Joshua, da mãe de Kyle, Alisson e do assassino exorcizado no episódio All Alone Now, o terceiro da temporada.

O Reverendo Anderson (Philip Glenister) é o mais controverso personagem da série, com um conflito moral que o abala constantemente, a partir do momento em que começa a contestar o seu método de trabalho. Seu modo de vida é atípico para um pastor: joga, bebe e não possui um relacionamento estável. Com um passado aparentemente assombrado pela relação com o filho e uma explosão temperamental (as vezes exagerada), é sem dúvidas quem mais acrescenta tensão, com um comportamento enervante muitas das vezes. Mas as intenções do tempestuoso pregador não são ruins, é bom que se diga mas seus atos falhos constantemente são irritantes e favorecem o antagonista Sidney. Ao mesmo tempo que as situações se apresentam para que ele possa aprender com os seus erros, suas atitudes não corroboram com isso em muitos momentos, sobretudo em uma das cenas finais de This Little Light, último episódio da temporada.

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Alguns personagens tem participações mais pontuais, como Giles (Reg E. Cathey), Mark Holter (David Denman) e Ogden (Pete Burris), com nenhuma atuação destacada. Porém, ainda com relação ao elenco de apoio e muito por conta do episódio final, a personagem Patricia (Melinda McGraw) poderá ter uma maior participação na segunda temporada, por conta das ações do reverendo. Completando o time secundário, Aaron (C.J. Hoff) mostrou-se um irritante personagem com uma atuação igualmente classificável.

Tecnicamente, influenciado pelo fato de que Outcast opta por um terror simples, a série acaba não exigindo muitos efeitos especiais. Quando isso ocorre, não é primoroso mas está longe de ser ruim ou comprometer a história. Muito da atmosfera criada se baseia no suspense e no comportamento dos personagens, em função das possessões que os acometem. A fotografia da série é fria e em muitos momentos, as sombras falam mais do que as palavras propriamente ditas. Somado a isso, este tipo de ambiente mais rural com a atmosfera de cidade do interior ajudam a dar este clima mais convidativo ao gênero, e isso é uma das características da principal criação de Kirkman, The Walking Dead, ambientada nos arredores da Georgia e que explora muito essa ambientação.

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Se não foi primorosa, Outcast também não é uma série que deva ser desconsiderada, embora possa ainda melhorar. Com um bom potencial e um interessante material de origem (bem adaptado por sinal) tem tudo para desenvolver uma história densa e com o sobrenatural orbitando cada um dos personagens, sendo um terror à moda antiga e que funciona para o formato televisivo.

3 estrelas

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...