Crítica | Narcos: 2º Temporada

Em sua segunda temporada, Narcos conseguiu se estabelecer de vez como uma das melhores séries da Netflix, tendo como missão prender o espectador em uma trama que, mesmo com o final já conhecido, ao longo de 10 episódios contou uma história envolvente.

A primeira temporada já havia tido um merecido destaque pelo bom trabalho técnico de direção, fotografia e atuação. José Padilha, que produz a série e dirigiu os dois primeiros episódios, tem bastante influência em todos os outros, com elementos característicos de suas obras como a câmera na mão, perseguições, ambientações de periferia, narrações em off e a mescla de fatos reais sendo mostrados em tela com a ficção. Porém, se no primeiro ano algumas dessas características estiveram presentes de forma que o ar da série em alguns momentos parecesse quase que documental, na segunda temporada isso foi mais dosado, enquanto que o fator humano foi colocado mais em evidência, com o desenvolvimento expressivo de vários personagens.

O ritmo e a montagem também colaboram de forma bem expressiva para a narrativa, sendo uma temporada mais intensa. Os episódios passam rápido e dá vontade de assistir tudo de uma vez. Os quatro primeiros são frenéticos, culminando no excelente The Good, the Bad, and the Dead. Após uma respirada, no sexto episódio Los Pepes as coisas voltam a se intensificar, até chegar ao derradeiro Al Fin Cayó!, sendo estes os maiores destaques entre os dez. Some isso a uma bela trilha sonora, bem mais explorada e com uma riquíssima musicalidade latino-americana.

Mesmo com uma um roteiro mais urgente, que a caçada a Pablo Escobar (Wagner Moura) exigiu, o que Narcos expôs com mais ênfase neste segundo ano foi a ambiguidade do ex-rei da cocaína, que alternava momentos de extremo afeto com sua esposa Tata (Paulina Gaitan), seus filhos e sua mãe Hermilda (Paulina García) enquanto que, movido pela vingança e mesmo com o cerco se fechando, era capaz das maiores atrocidades como explodir um carro bomba próximo a uma área escolar e mandar executar policiais a sangue frio.

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Não há como negar que, mesmo não sendo o protagonista da série (a estrela é a cocaína) Wagner Moura cresce absurdamente no papel que já havia desempenhado bem nos primeiros 10 episódios. É bastante comum observar planos fechados e expressões do ator falando mais alto em várias cenas, com uma entrega considerável além de trejeitos e maneirismos mais acentuados. Hablando um espanhol mais convincente e com toda essa  atuação bem mais minimalista, o Pablo de Moura não só convence como transmite todo tipo de sentimento: uma hora você quer que ele morra, e em outros momentos, escape. Isso mesmo.

Escobar reaparece exatamente onde terminou a primeira temporada, fugindo na selva, em uma cena que remete ao inicio da série, mas com uma postura bem mais imponente. O carisma do personagem, no entanto, não é algo glamouroso, tampouco a condição que o leva a ser o homem mais rico do país e dono da sétima maior fortuna no mundo, em determinado momento. A série escancara a todo tempo que o Rei da Cocaína era de fato um bandido, entretanto ninguém é totalmente mau, embora o cinza de Pablo fosse bem mais escuro.

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Sua maior devoção e objeto de amor maior, a família, foi a derrocada de seu império, aliado ao seu orgulho e megalomania. Escobar esteve com os seus durante a maior parte do tempo após a sua fuga, possibilitando bastante cenas entre eles. Os momentos com Tata foram ótimos e cheios de carga emocional. A personagem também cresceu bastante neste ano e o trabalho da atriz Paulina Gaitan foi bastante convincente.

Um fato comum em muitos episódios é ver que, sempre quando Pablo estava tendo algum tipo de interação com os filhos, seja brincando ou contando-lhes alguma história, era interpelado por algum sicário, fossem eles os já conhecidos Velasco (Alejandro Buitrago), La Quica (Diego Cataño) ou Limón (Leynar Gomez), que se juntou a Pablo e permaneceu ao seu lado até o dia de sua morte. Os capangas aliás, da mesma forma que protegiam o pai, eram uma espécie de babás para as crianças, fato corriqueiro em tela.

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A onda de violência que o tráfico de cocaína causou no país possibilitou o surgimentos de outros grupos organizados. Se por um lado em Medellín, Pablo fundou e comandou o Cartel de Medellín, em Cali, os irmãos Orejuela liderados por Gilberto (Damián Alcázar) e o já conhecido Pacho Herrera (Alberto Ammann) também estavam a frente dos negócios locais, sendo a segundo maior organização criminosa do país. Entretanto, o modus operandi era diferente, sempre com discrição absoluta. Com a caçada e a queda iminente mas que nunca ocorria, intensificaram-se as conexões entre os traficantes das duas cidades, com mudanças de lado e constantes traições. Isto conferiu a Narcos um elemento que tornou a narrativa ainda mais interessante: a sensação constante de desconfiança.

Além dos governos colombiano e americano, e o já citado Cartel de Cali, quem surge nessa temporada para conferir peso e terror a guerra são Los Pepes, um grupo paramilitar de extrema direita. A figura opressiva e ameaçadora dos irmãos Castaño, com boa atuação de Mauricio Mejía e Gustavo Angarita Jr. adicionou mais incerteza e ferocidade ao banho de sangue que se instaurou em Medellín, no início dos anos 90. Judy Moncada (Cristina Umaña) e Don Berna (Mauricio Cujar), agora mirando em Escobar, também ganharam um bom tempo de tela.

O momento em que todas essa forças convergem em uma mesma direção representa o perigo que uma associação em busca de um objetivo maior pode trazer. Assassinatos e barbáries em nome de uma caçada que saiu do controle e ceifou milhares de vidas, entre bandidos e inocentes. Isso Narcos escancarou com veemência, e curiosamente foi motivo do afastamento do agente Javier Peña no momento derradeiro da busca e também o mote para a próxima temporada que está por vir. Há de se destacar, falando ainda em Javi, que Pedro Pascal rouba a cena em vários momentos, com uma ótima atuação e na próxima temporada, o gancho deixado provavelmente poderá indicar um certo protagonismo ao agente do DEA. Será que Peña será o nosso próximo narrador?

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Não se pode esquecer que a  versão que Narcos pretende passar é a partir dos agentes da DEA, e além disso, por ser uma obra de ficção baseada em fatos reais e não uma biografia, a série explora uma série de desdobramentos nos meandros do governo americano. Assim, ao contrário da temporada anterior onde o foco em termos de Estados Unidos foram os agentes Steve Murphy (Boyd Holbrook), personagem que também cresce demais na temporada, e Peña, aqui outras figuras ligadas ao governo americano são inseridas e até a CIA se faz presente,  contribuindo de maneira importante para os eventos finais.

As cenas de ação desta temporada são ótimas, embora alguns clichés tenham retornado, como a perseguição sem sucesso ao bandido que escapa no final, fato que já havia ocorrido na primeira temporada e que na segunda acontece por duas ou três vezes. Dito isso, as sequências de perseguição são extremamente bem executadas, mostrando todos os becos e vielas de Medellín, que nos momentos em que vemos um plano aberto, podemos contemplar toda a realidade do local. Falando nisso, os planos aéreos mostrados são muito bonitos, e a fotografia quente trata de situar bem o espectador naqueles ambientes, especialmente os laboratórios e os locais mais pobres.

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Ainda há espaço para uma discussão moral que remete à outra obra de Padilha: Tropa de Elite. Em dois momentos pode-se observar questões como a relação oferta x demanda das drogas e o modo de tratamento com os criminosos. O primeiro é quando Steve Murphy agride um homem que estava embarcando para os Estados Unidos, após cheirar cocaína no aeroporto. Antes de esmurrar o engravatado, ele fala que seis pessoas haviam morrido para que a droga chegasse até ali, entre outras coisas que responsabilizam o usuário de drogas na mesma proporção em que o traficante. Em outra situação, quando o Coronel Carrillo (Maurice Compte) retorna ao país e utiliza seus peculiares métodos, também é comparável ao modo de agir de alguns grupos da polícia, retratado em tela no filme brasileiro.

Se tem uma coisa que Pablo soube planejar foram atentados, como o que matou mais de cem pessoas dentro de um avião e os ataques ao governo, através de grupos armados. Na segunda temporada, uma cena é mostrada de forma intensa e agoniante: a bomba que foi detonada em uma área escolar. Ali, como curiosidade, uma rima interessante ocorre, quando Escobar, sozinho, calmamente observa o sapato de Manuela e um pai, que estava no local do atentado, procurando pela filha nos escombros, vê também o calçado dela. Outra cena memorável é no episódio 4, o melhor da temporada e que marca uma virada incrível na série, com a emboscada sofrida por Carillo.

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Conforme já foi mencionado, a adaptação não é biográfica e certos personagens sequer existiram ou foram apenas baseados em algumas pessoas. O advogado Fernando Duque (Bruno Bichir) é uma alusão aos advogados e políticos com quem Pablo mantinha relações. Já a jornalista Valeria Velez (Stephanie Sigman) foi inspirada em Virginia Vallejo, uma famosa jornalista que realmente foi amante de Escobar mas que não morreu em atentado algum.

Houveram momentos em que a liberdade poética falou mais alto e foram muito bons. Em um certo episódio, Pablo sonha que está sendo empossado como presidente da Colômbia, com direito a uma interação nunca antes vista na série com o presidente Cesar Gaviria (Raúl Méndez), o seu maior antagonista. Outro devaneio muito bem vindo foi o encontro com seu primo Gustavo Gaviria (Juan Pablo Raba), numa ótima cena em uma praça de Medellín. Aliás, ele já havia aparecido em um flashback e a química entre os dois atores em cena é incrível. O realismo fantástico aplicado as histórias de Pablo é muitas vezes inimaginável de tão absurdo que eram tais situações. Uma cena emblemática que remete a isso foi a queima de dinheiro, durante uma fuga com a família, para acender a lareira e aquecer a casa. Neste caso, o roteiro se beneficia pois o absurdo era perfeitamente possível para um homem como Escobar. E isso foi verdade. Pablo queimou 2 milhões de dólares nesta ocasião.

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Certamente, as duas temporadas de Narcos foram bem consistentes, e com mais duas renovações garantidas poderá continuar contando a história da propagação da cocaína pelo mundo. Sem Escobar, mas com os personagens que foram bem introduzidos, a certeza é de que a produção continua no caminho certo.

4 estrelas e meio

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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