Crítica | The Night Of 01×08: The Call of the Wild (Finale)

Em seu maior episódio dentre os oito apresentados, com mais de uma hora e meia de duração, The Call of the Wild encerrou The Night Of  e amarrou todas as pontas necessárias para um desfecho satisfatório, abordando todos os temas recorrentes e definindo o destino dos personagens através de suas ações.

Se houve uma característica para definir a jornada de Naz em Rickers Island, foi a sobrevivência. E o custo foi alto, pois sob a proteção de Freddy, conheceu as drogas pesadas e o tráfico, envolveu-se em um assassinato e ficou endurecido por conta da hostilidade do ambiente em que conviveu. Na noite que antecedeu o seu julgamento, um diálogo muito interessante chamou a atenção, quando seu protetor explica sua motivação para colocá-lo sob tutela: sua condição diferenciada e o cheiro de inocência. Naz era Seu unicórnio pessoal, como ele bem disse. Ao sair, não houve uma despedida e quando o ex-preso olha para trás mas não há o contato, bem diferente do olho no olho do dia anterior.

Na verdade, durante todo esse tempo, mesmo com toda sua veia criminosa, de alguma forma Freddy tinha algo de bom, e isso era a sua relação com Naz. A sequência que mostra a saída da cadeia só consegue transmitir alívio quando os portões se abrem e Salim está lá para abraça-lo. O caminho é claustrofóbico, cercado por pequenas salas e guardas emburrados. Parece que vai acontecer alguma coisa a qualquer momento mas o único acontecimento diferente é o presente que ele ganha, o livro The Call of the Wild de Jack London. Uma obra de 1903 que fala sobre sobrevivência, onde um cão doméstico é obrigado a se adaptar em um ambiente selvagem.

Naz por um triz

Curiosamente, quase tudo deu errado, principalmente na cela do tribunal onde um beijo já havia estragado as coisas, e a abstinência de drogas quase arrasou todo o cenário. Quando interrogado, Naz foi impiedosamente quebrado pela promotora Helen Weiss, com uma interpretação impecável de Jeannie Berlin. Não se pode deixar de dizer que Riz Ahmed esteve igualmente muito bem neste finale, sendo sua melhor atuação até aqui. E muito disso se desenvolveu com olhares e expressões. No interrogatório ele perde o compasso e, assumindo que não sabia o que tinha acontecido, quase colocou sua liberdade em risco.

Mas se por um lado, a sentença favorável garantiu a sua soltura, por outro está longe de ser um final totalmente feliz, muito pelo contrário. A família Khan ficou sem dinheiro e os trabalhos de antes, sua condição agora é de viciado, a relação com a mãe estremeceu e o julgamento da sociedade, sobretudo da comunidade muçulmana é implacável. Para quem precisa retomar a vida, os estudos e o convívio social, há de se recuperar primeiro uma parte de si, que se foi naquele fatídico dia de substâncias proibidas e sexo com uma desconhecida. Sua última cena, onde no mesmo local onde tomou a primeira droga de Andrea é melancólica e traduz bem essa condição.

The-Night-Of-01x08-Naz-Rickers-Island

Por que Chandra?

Não há como negar que Chandra teve um importante papel no empate inconclusivo de 6 a 6 dos jurados. Através de um ótimo trabalho, apresentando os suspeitos não investigados pela polícia, além da grande participação do Dr. Katz, a advogada dentro do tribunal conseguiu fornecer o benefício da dúvida necessário e só cometeu um erro, que quase colocou tudo a perder, que foi o depoimento final de Naz. Movida pelo ímpeto e confiança, ao não dar ouvidos a John, podemos atribuir isso a inexperiência frente a um grande caso.

O que não deu para engolir foram os deslizes cometidos na cela da cadeira. O beijo, motivo inclusive de seu rebaixamento para adjunta, já havia sido algo imperdoável mas de certa forma superado. Entretanto, o contrabando e a droga que tirou de dentro de si foi o único ponto fora da curva, de forma negativa dentro do episódio. Que advogada em sã consciência, mesmo com o peso da inexperiência faria isso? Não soou muito verdadeiro esse disparate, e não foi nem mesmo um recurso de roteiro para tirá-la das considerações finais, uma vez que o cd comprometedor com o primeiro deslize já seria o suficiente. Dito isso, a atuação de Amara Karan no papel foi boa e conseguiu extrair da personagem ótimos momentos, como o choro quase que incontrolável no tribunal, ao perceber o erro crasso cometido.

The-Night-Of-01x08-Candra

Melhor personagem

Em termos de interpretação, ninguém brilhou tanto na série como John Turturro. Jack Stone, o advogado porta de cadeia, também teve uma jornada interessante, mas da mesma forma que vários personagens, não tão bem sucedida. Buscou incessantemente a cura do eczema, experimentou os dias de glória com os pés calçados com sapatos e no derradeiro episódio se viu em meio a uma crise que o deixou pior do que já esteve em toda a minissérie. As sandálias voltaram, o grupo de auto-ajuda e até a delegacia, com seu modesto honorário de 250 dólares, pagos quando a pessoa sair, é claro. E de madrugada, John voltou a ser quem ele era no começo da série, porém brilhou em seu discurso emocionado e se por um lado, Chandra teve uma atuação destacada, por outro ele conseguiu contribuir de forma decisiva, embora não estivesse acostumado como bem frisou.

O que mais encanta no personagem é a capacidade de ser uma figura humana em sua  essência, com todos os defeitos e qualidade que uma pessoa pode ter. Não é totalmente bom, vide suas atitudes esnobes em certos momentos, mas é bondoso ao adotar um gato, mesmo que isso implique em luvas de latex e máscaras. Ainda que tenha descartado o animal, a cena final além de simbólica é uma das melhores que um finale já apresentou, seja pela simplicidade ou pelo sorriso no rosto que certamente você deve ter tido. Foram deles as melhores cenas de alivio cômico e neste episódio, quando o farmacêutico diz que o viagra chegou, sua reposta arranca uma risada fácil: “estou muito duro para isso”.

As Feras sutis

Um tema recorrente e que enaltece a qualidade de The Night Of é a capacidade dos personagens em ter bondade dentro de si, desde um bandido, passando pelo bom moço, até os advogados e policiais. Trata-se de vários tons de cinza. Nesse aspecto, a belíssima fotografia da série é certeira. Desta forma, tanto Dennis Box quanto Helen tiveram a chance de se retratarem consigo mesmo. A todo momento, mesmo que com desconfiança, a busca pela condenação de Naz fez com que buscassem sempre encerrar o caso. Mediante a tantos furos de investigação e coerência, tanto um quanto outro tiveram uma remissão pessoal.

O detetive aposentado chegou até Ray, o contador, do jeito que deveria ter feito desde o início. Assim vimos que sua inquietação no episódio anterior era questão de consciência. Já a promotora, em suas últimas considerações, parece analisar a si mesma e ao caso. Quando desiste do julgamento, é como se absolvesse o garoto e se livrasse do peso de uma condenação injusta, que simbolicamente pode ser enxergado através do seu par de tênis na saída do tribunal. Não veremos os dois juntos, indo atrás do consultor financeiro, mas sabemos que as feras sutis juntas, trabalhando de forma correta seriam implacáveis.

O grande mérito de Steven Zaillian e Richard Price foi através de uma narrativa instigante, manter o suspense do tema principal e amarrar as subtramas de modo a torná-las interessantes e sem cansar o expectador. A quantidade de episódios foi acertada, o piloto e o último em especial extendidos, conseguindo introduzir e fechar os pontos principais. Tudo isso dentro de um vazio que permaneceu intacto, que foi a morte de Andrea. Desde o início, soube-se que a jornada não era somente sobre o desvendar de um crime, mas o que uma condenação injusta pode trazer, a forma como é tratado pelos dois lados, os procedimentos jurídicos, investigativos e a repercussão causada.

O poder da narrativa sob pontos de vista distintos e a manipulação das circunstâncias evidenciam a dubiedade que a série quis mostrar. Tecnicamente, dispensa comentários, com uma ótima direção, elenco de primeira, fotografia bem empregada e ambientação imersiva. Com isso, The Night Of não é de longe uma série unidimensional, além de uma ótima surpresa em 2016, sendo uma das melhores exibições na televisão, até o momento neste ano.

Nota da Temporada:

4 estrelas e meio

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...