Crítica | Mr. Robot 02×08: eps2.6_succ3ss0r.p12

Em uma decisão ousada e eficiente, em eps2.6_succ3ss0r.p12 acompanhamos com destaque o núcleo da fsociety, enquanto Elliot e Mr. Robot não deram as caras em Mr. Robot. O que poderia se tornar temerário, pelo caráter secundário dos personagens envolvidos, acabou sendo um respiro importante para o protagonista, além de proporcionar um thriller psicológico intenso com ritmo acelerado, todas as paranoias possíveis e ações que extrapolaram a tela de um computador.

Assim como em dois episódios desta temporada, onde já havíamos visto a entrada de Romero no grupo e o surgimento do Mr. Robot, desta vez observamos o recrutamento Mobley e Trenton, em um café, que no final do episódio foi o mesmo em que a hacker muçulmana esteve após fugir. Curiosamente, este mesmo local pertence a mesma rede (Ron´s Coffee) onde no começo da primeira temporada, Elliot entregou um pedófilo para a polícia. Também como observação, o discurso que Darlene fez para os até então novatos é o mesmo que no início do episódio piloto nós ouvimos do protagonista.

Na Smart House da Madame Executioner, a importante revelação da Operação Bernstein do FBI, não só nos trouxe uma informação importante para a história, mas fez uma crítica a vigilância e a privacidade dos usuários de serviços online, evidenciando a colaboração de mais de vinte empresas e uma lista final com 17 suspeitos. Bom, tirando Romero, são 16 agora. Todo esse primeiro ato remete a mais um sucesso da fsociety, com direito a mais um vídeo que viralizou, além do exito obtido com o que seria o eminente cancelamento da operação após o vazamento dos áudios.

Entretanto, algo que ainda não havia acontecido, foi o desenrolar se uma situação de confronto real. Elliot já passou por isso mas Darlene e os demais até então não haviam chegado a esse ponto, pois problemas já haviam acontecido, mas todos puderam ser contornados. Porém, as soluções sempre estavam por trás de telas de computador e através de frenéticos teclados e interfaces não convencionais. Aqui eles tiveram que lidar com o inusitado, e não souberam como agir.

Os fatos apresentados dão a impressão de que frágil não era a ação, nem as motivações do grupo, mas sim os pilares de sustentação que poderia garantir o sucesso a longo prazo. Tanto no modo de lidar com as pressões envolvendo o FBI, mas também com as consequências que a série vem evidenciando, como a falta de dinheiro e serviços precários. Além disso, quando a fsociety se viu tendo que agir fora de seu modus operandi virtual, as coisas se complicaram, tomando uma proporção que não era imaginada por eles e saindo do controle.

Darlene, em desequilíbrio, não somente deixou de inspirar confiança dos demais (lembre-se que Mobley não confia nela e no irmão), como agora abraçou o lado sombrio. Não havia qualquer indício desde o início, de que ela poderia cometer um ato como o assassinato de Susan Jacobs, mas a satisfação dela ficou explícita quando ela diz para Cisco que não se sentiu mal. A cena que começa com o diálogo falando sobre a audiência que inocentou a E Corp que culmina no choque fatal é sombria, fechada e termina em uma cena igualmente claustrofóbica, com Susan morta em sua piscina, curiosamente dentro de sua casa tão tecnologicamente controlada e segura.

Mr. Robot - Season 2

Vários elementos da primeira temporada puderam ser observados: a paranoia constante quando os personagens estão se deslocando, sobretudo no metrô; o crematório dos cachorros e o clima altamente conspiratório. Sobre a condição de assassina que Darlene passa a assumir, presumindo que Mr. Robot esteja certo quando revelou o que aconteceu com Tyrell, a rima narrativa passa a acontecer entre os irmãos, e com a jornada de um se fundindo com a do outro, será que seu estado mental também será abalado?

Alguns pontos não podem passar batidos. Embora tenha sido refutada uma possível eliminação do corpo por ácido (o que me lembrou Breaking Bad é claro) a ideia de colocar o corpo na mala pareceu bem mais conveniente e inconsistente. Tanto o acondicionamento quanto o transporte, vamos ser sinceros, foram um pouco forçados. Pelo conjunto da obra, podemos seguir em frente e abstrair, ok. Além disso, a cena na casa de Cisco, com a revelação de que ele estava vigiando e passando informações para o Dark Army também chama atenção, não pelo fato de Darlene ter desconfiado ou ter dado um golpe com o taco de beisebol, mas sim pelo descuido do hacker, que joga dos dois lados, em deixa ser notebook aberto na mesma enquanto tomava banho.

Mr-Robot-Darlene-bastão

Nunca houve tanto espaço em um episódio para os personagens secundários  Mobley e Trenton. Aparecendo apenas em acontecimentos eventuais durante toda a série, desta vez pudemos ver mais dos personagens, desde a angústia na casa de Susan até o momento em que fogem. Nesse espaço de tempo, o melhor momento sem dúvidas é quando DiPierro enquadra o “DJ” e o mais interessante em observar nessa ótima personagem é que está no caminho certo mas sem a percepção exata ainda, tanto é que sua intenção é chegar em Tyrell.

O fato dela associar Mobley a uma participação de baixo protagonismo nos faz pensar o quanto é angustiante observar que, alguém muito mais participativo no 09/05 está bem ali, debaixo do seu nariz. Mas Dom é muito perspicaz, fatalmente em algum momento deverá ligar algum ponto com mais consistência.

Mr. Robot - Season 2

Também sob a vigilância de DiPierro, a qual descobrimos com surpresa ser bem mais anterior a sua desconfiança no dia do hackeamento do FBI, Angela Moss teve uma participação menor mas não menos brilhante. A personagem se divide entre os dois lados: derrubar o mal por dentro ou saborear o gosto dos seis dígitos em sua conta bancária, fato este que usa para humilhar um amigo de seu pai, Steve, o encanador. E cá para nós, bem feito. Além disso, o flerte com um homem mais velho foi desconcertante.

Mr.-Robot-Angela

No retorno da segunda temporada, em um breve instante, a vimos ir para casa e dormir com um cara, e neste episódio ela está novamente com ele. Um agente do FBI mas que por conta do endurecimento dela, não conseguiu extrair nada. Até agora, se observarmos, essa personagem tem sido a quem mais tem mantido o controle, tema central deste segundo ano. Entre mantras de autoconfiança, indecisão e ousadas investidas na E Corp, é uma personagem completamente diferente do primeiro ano.

A melhor cena

Sua cena no karaokê foi linda, em um plano fechado, captando toda a emoção de Portia Doubleday, que merece todos os elogios. Cena que aliás remete a The Leftovers no excelente episódio International Assassin. Todos querem governar o mundo, é o que diz o refrão de Everybody Wants to Rule the World, do Tears for Fears, que ainda tem um trecho que diz: “é o meu próprio projeto, é o meu próprio remorso, ajude-me a decidir.”

Mr-Robot-02x08-Angela

A quatro episódios do fim da segunda temporada, Sam Esmail mostrou que continua tentando trazer uma narrativa diferente e ao dar protagonismo a fsociety, e mesmo sem alguns personagens importantes, avançou a trama e agora fica a pergunta: como ele poderá encaixar Elliot nessa terra arrasada que se tornou o grupo? Aposto que você também está aguardando por isso.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...