Crítica | The Night Of 01×07: Ordinary Death

Com interessantes paralelos e uma excelente montagem, Ordinary Death não foi somente um ótimo episódio, como também preparou o terreno para o capítulo final, onde saberemos a sentença e todos os desdobramentos de The Night Of.

No julgamento, Helen e Chandra continuaram a apresentar seus argumentos e interrogaram as testemunhas em ótimas cenas, com destaque para Amara Karan que conseguiu transmitir confiança para sua personagem, uma jovem advogada que tem o caso de sua carreira nas mãos. No episódio passado, a promotoria teve mais espaço e dessa vez coube a defesa atuar mais. É interessante notar como a personagem, ao mesmo tempo em que age com personalidade e bastante poder de observação, como no brilhante insite da bomba de asma, quase levou tudo por água abaixo ou beijar Naz na cela do tribunal.

Chandra não somente tem se afeiçoado pelo caso, como tem tornado isso algo muito pessoal e que talvez esteja além da tensão sexual. Note que não há química alguma para um relacionamento afetivo que não seja o acolhimento, e talvez ela só não esteja sabendo como lidar com essa situação, embora essa relação mais estreita entre advogado e cliente não seja algo incomum.

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Os diálogos no tribunal foram ótimos, com destaque para as evidências igonardas pela polícia. Quando Helen confronta Dr. Katz, o perito contratado por John Stone, é um festival de ironias e falas afiadas. Destaque para Jeannie Berlin e Chip Zien, que rouba a cena com um sarcástico e quase cômico modo de falar e descrever os acontecimentos. Fato é que muita coisa se mostrou negligenciada: a porta aberta na varanda, uma janela destrancada, a visão da escada para a cozinha, o pedaço de pele na mesa e o conjunto de facas. Tudo isso refutou a forjada afirmação do legista macomunado com a promotora, que disse que o corte era proveniente de um golpe desferido por Naz.

Neste episódio pudemos ver também o quão enfadonho tem sido o trabalho para Dennis Box. O cansado detetive, pelo que se percebe desde o início, optou pelo caminho mais curto ao invés de investigar de forma mais incisiva o caso. Se tivesse empregado o mesmo apuro que ele possui para tratar os casos, e que usou para encontrar evidências que pudessem incriminar Naz, certamente as coisas poderiam ter tido outro rumo. Intimado para depor, sua expressão é um misto de impaciência com indiferença.

Ao ouvir de Chandra e ver as evidências ignoradas, nos vem a mente que mesmo com uma dúvida que certamente paira em sua mente sobre a origem do assassinato, ter subestimado a admissibilidade de inocência foi um erro crasso. Mais do que isso: paira no ar uma desconfiança ainda obscura sobre a motivação para o desleixo de Box. Embora não esteja conectado, pelo menos de forma aparente com nenhuma forma criminosa, é adminssível desconfiar do detetive. No segundo episódio, John diz a Naz que Box faz tudo dentro da lei. Será que a fera sutil tramou algo que ainda descobriremos ou apenas se descuidou?

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Não menos interessante e sempre o melhor personagem a se acompanhar, Jack Stone segue em sua atuação paralela ao julgamento que vem sido protagonizado por sua parceira. Isso só fortalece a ideia da narrativa em que tudo se ganha nos bastidores. Neste episódio, John Turturro ficou em segundo plano, mas mesmo asssim pudemos observá-lo mais uma vez fazendo as vezes de investigador, revirando o passado suspeito de Don e sendo ameaçado por ele. A essa altura, pode ser que isso sirva apenas para confundir o público e não necessariamente ele seja um assassino, mas de qualquer forma, o caráter do mesmo é algo totalmente em cheque.

O alívio cômico foi quando ele visitou a ex-mulher rica do padastro de Andrea, e também não podemos esquecer de sua corridinha na esteira da academia! Quanto ao lado pessoal, sempre explorado, seu filho pareceu ignorar seus sapatos e a oferta de ter um gato, que aliás proporcionou um momento que os amantes de felinos puderam se deleitar: o mimo com o mesmo utilizando luvas e máscara, a sequência em que o bichano sai do quarto para dormir na cama e a afirmação categórica depois do veredito do Dr. Yee. Ele não quer se livrar do seu gato.

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Triste é a maneira como se encaminham as coisas para a família de Naz. Salim, o único que parece acreditar em Naz, além da necessidade de trabalhar em serviços mais modestos, precisou vender o táxi por um preço menor e perdeu sócios, jóias e objetos de valor. Tudo isso tem sido empregado nas custas do processo. Safar também passa pela mesma necessidade de trabalho, enfrentando um dilema consigo mesma, que é não conseguir deixar de acreditar que criou um monstro. Tudo isso tem sido demais para ela, o que é sentido pelo filho também que sem exito, tenta telefonar da cadeia. Ao mesmo tempo,  taxistas paquistaneses tem sido atacados em Nova Iorque e os Khan também tem sofrido represálias, na rua e dentro da própria casa.

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Em Rickers Island, o que temos visto de Naz é uma mudança de personalidade que, por mais que a série tente apontar que haja uma pré-disposição para um comportamento violento, possui grande influência do sistema carcerário. Não bastasse o tráfico, atividade criminosa em que ele já possui expertise, o uso de crack e a violência, de forma fria e astuta ele tramou com Freddy o assassinato de Victor, após Petey ter se matado por conta dos abusos sexuais. Bem diferente dos revides evidenciados no tribunal, quando após os ataques do 11/09 ele mandou dois colegas de escola para o hospital, na prisão o sistema o transformou para que a sua sobrevivência pudesse se sustentar. Você consegue imaginar o Naz de cinco episódios atrás vivo até este ponto?

A medida em que Chandra se desdobra para convencer os desinteressados jurados de que ele não é um assassino, agora ele é cúmplice de uma morte cuidadosamente planejada. Fora da cadeira, mesmo sendo inocente, a essa altura ele já é um criminoso, o que já inclui um planejamento de homicídio em seu currículo, entre outras atividades ilícitas. A morte que aliás, é comum, odinária, e que dá o título do episódio.

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Essa sensação dúbia que os escritores tentam nos passar realmente fazem nossos sentimentos transitarem entre a simpatia e o desconforto. Em determinados momentos, enxergamos Naz somente como uma vítima do sistema prisional, mas em outros , quando além de uma agressividade até certo ponto justificável pela xenofobia pós 11/09, conhecemos o passado recente onde ele traficava remédios. Aquela piscada de olho e o posterior olhar para seu colega de faculdade não só são assustadores, como refletem o que este novo Nasir poderá fazer caso saia da prisão. Como estamos descobrindo a cada episódio novos furos em seu passado, tudo ficou em aberto e agora, o bom moço já não mais tão bonzinho assim.

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Algo que tem chamado a atenção substancialmente é o cuidado que Steven Zaillian e Richard Price tem tido com o roteiro e as subtramas apresentadas. Nenhuma delas ocupa tempo demasiado em tela, contribuem para a narrativa e são de interesse do público. Ok, teve o eczema, não podemos ignorar. Entretanto, desde a investigação paralela que John vem conduzindo para chegar até Duane Reade e ao passado de Don, passando pelos problemas da família Khan, da comunidade muçulmana e o terror da prisão, tudo flui adequadamente com a trama principal.

Outro aspecto interessante são as rimas apresentadas, como a bomba de asma que foi utilizada para salvar Naz e pode trazer esperança para o julgamento; o vidro que Petey quebra antes de se suicidar e que remete a janela quebrada que causou problema para Naz; e o corpo que Box vê, no começo do episódio: uma mulher negra, esfaqueada, que poderia ser até um caso relacionado ao assassinato de Andrea, mas sem a mídia e a atenção que a morte de uma jovem branca trouxe.

Ao mesmo tempo que no tribunal as coisas acontecem e caminham para a decisão, The Night Of se despedirá no próximo Domingo às 22 horas na HBO, com a certeza de que se diferenciou no gênero, não somente pela qualidade estética, mas também pela narrativa que em nenhum momento é unidimensional e consegue fazer com que o mistério em muitos momentos fique em segundo plano. E após a exibição de The Call of the Wild, último episódio, torcemos para que todas as pontas estejam devidamente amarradas.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...