Crítica | The Night Of 01×06: Samson and Delilah

Mantendo o cuidado em todos os desdobramentos do crime cometido no episódio piloto, The Night Of vem estabelecendo uma discussão que vai bem mais além que uma simples acusação. Implicações sociais, familiares e comportamentais caminham lado a lado, fazendo com que a expectativa não ser restrinja somente ao desvendar do que aconteceu.

Em Rickers Island, Naz mergulhou de cabeça em um mundo sombrio. Tragado pelo sistema paralelo e sendo uma espécie de pupilo de Freddy, que deseja torná-lo um prisioneiro de verdade, o personagem cada vez mais se adequa a um mundo em que pode ser o único com o qual ele poderá ter contato daqui para frente. Isso inclui uso de crack, tatuagens e os benefícios da proteção, como o celular que ele não usa para falar com a família, mas com a advogada. Dentro desse contexto, é interessante como o ex-boxeador tem a capacidade de prever todas as situações que podem ser favoráveis ou não, como quando ele presenteia Naz com uma camisa branca, que mais tarde mostrou-se a escolha mais adequada.

Ainda soubemos que sua ida para Rickers foi forjada por uma questão de conveniência, o que torna o personagem além de persuasivo, calculista. O momento mais tenso foi quando Naz foi ameaçado no chuveiro, após ter visto o que não devia: Petey fazendo sexo oral em Victor. O temor pelo que poderia ser uma represália provocou não só o medo do “chefe”, mas nos mostrou a confiança de Naz em não utilizar mais os sapatos no banho. A tração não é mais necessária?

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Fora da cadeia e com o julgamento iniciado, Nasir precisa se portar como era antes, muito diferente do que ele tem sido dentro dos muros da prisão. A cena em que ele troca de camisa com John chega a ser cômica. Assistimos mais da atuação da promotora Helen Weiss, o que nos dá a possibilidade de ver a firme interpretação de Jeannie Berlin. Como no episódio passado, ela continuou a fazer seus contatos previamente, ratificando que o seu trabalho começa realmente nos bastidores e que o objetivo maior continua sendo colocar um ponto final com a condenação de Naz. Tal condição é confirmada pelos rastros seguidos pelo detetive Box, a partir das redes sociais do garoto, procurando evidências de um passado violento.

Em um distante ano de 2001, logo após os ataques do 11 de Setembro, Naz sofria preconceito no colégio assim como acontece com a comunidade muçulmana após o assassinato de Andrea, mostrado no começo do episódio com a agressão a um taxista paquistanês, em uma interessante rima entre os casos. Estes acontecimentos fizeram com que ele agredisse um outro aluno, fato confirmado por um funcionário da escola que ficava perto de casa e levou Nasir e migrar para outra a 40 minutos de distância, utilizando transporte público, fator de desconfiança e mencionado outras vezes por Box.

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O que não é levado em consideração pela polícia mas cada vez mais vem ganhando forma é a investigação paralela feita por Jack, e agora Chandra. Após colocar Duane como um dos possíveis suspeitos (pelo menos para nós), John conseguiu coletar alguns dados que podem colocar em cheque Don, o padastro de Andrea. Sua presença desde o início tem tido um ar meio apático e misterioso, entretanto a briga pela casa poderá até mesmo ser um artifício do roteiro para despistar o espectador.

Chandra também se lançou como detetive e brilhantemente chegou até o motorista do carro funerário, que descobrimos ter saído na mesma direção de Naz. Seu discurso com direito a citação bíblica que dá título ao episódio, indica uma certa psicopatia, mas pode somente evidenciar a misoginia intrínseca a ele. Fato é que agora existem três suspeitos, que nem sequer foram cogitados pela polícia.

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A família Khan chegou ao seu pior momento até então e essa é uma das principais mazelas provocadas pelas falhas investigativas que estamos presenciando. Em rápidos mas expressivos momentos, pudemos ver Salim trabalhando como entregador atendendo a um pedido de Chandra, que fica constrangida na melhor cena de Amara Karan no episódio. Até podemos esquecer a conveniência do roteiro em trazer esta coincidência. Safar foi demitida e ao comparecer a uma agência de empregos, só teve as portas abertas para um trabalho como faxineira. Os dois, no momento em que se encontram mais endividados, passam a ganhar menos e devemos lembrar dos honorários da causa.

Por fim, convidado gentilmente a se retirar do colégio, Hasan é mostrado vandalizando o local no que pode indicar um futuro prob lema comportamental. Muito da série também se trata da forma como isso pode afetar toda uma família e comunidade, de forma sutil mas com um desenvolvimento natural e isso é um grande mérito para Steven Zaillan e Richard Price em The Night Of.

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Entretanto, em meio a momentos tão conturbados, pudemos saborear uma vitória pessoal de John Stone, contra o eczema. Mais uma vez em busca da cura, foi nos métodos alternativos do Dr. Yee que seu pé voltou a ser íntegro. Toda a satisfação ao calçar os sapatos deram a audiência um alívio, assim como os momentos em que ele cuida do gato. Este é certamente o personagem mais bem desenvolvido da série, não somente por conta de John Turturro, mas também por várias situações que se apresentam para ele, como seu relacionamento com o filho, a doença, mulheres e a profissão.

Trabalhando com Chandra, Jack ainda vem desenvolvendo uma boa relação profissional e quem sabe uma amizade possa surgir. O diálogo no bar evidencia uma maior aproximação neste sentido. É bom lembrar que as relações da série vem se desenvolvendo com mais outras duas duplas: Box e Helen; Naz e Freddy.

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Caminhando para o fim da linha, The Night Of começa a colocar as peças no tabuleiro de forma mais clara, pelo menos para nós. Ainda que a intenção seja somente essa e não resolver o caso de forma correta, devemos lembrar que não estamos falando somente de uma série policial, mas de um complicado e sujo jogo de interesses e sobrevivência.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...