Crítica | The Night Of 01×04: The Art of War

Qual o custo da sobrevivência dentro de um ambiente hostil? Provavelmente é algo que só poderíamos ter ideia vivenciando uma situação extrema, como ocorre em Rikers Island ou em outros locais muito piores. E traçando paralelos, em The Night Of o assassinato que desencadeou os acontecimentos cada vez mais serve de pano de fundo para discussões de temas mais aprofundados como foi mostrado no bom episódio The Art of War.

Mais uma vez as atenções se voltaram para Jack Stone (John Turturro) e Naz (Riz Ahmed), em suas respectivas jornadas, cada qual em seu inferno particular. Após alguns instantes de glória, Jack voltou a ser o advogado de porta de cadeia de sempre e um homem mais quebrado do que antes, com seus recorrentes problemas com o eczema que lhe causam desconforto de saúde e social. Já está sendo repetitivo mas é preciso registrar que Turturro continua sendo um show à parte com sua interpretação. Correndo por fora e dando uma de investigador, Stone parece ainda se importar com o acusado mas sempre existe aquela porcentagem de interesse como quando ele obtêm os dados de Andrea na clínica de reabilitação e depois revende. Nesse momento tivemos a confirmação de que ela já tinha todo um histórico com as drogas e também chamou atenção o fato de que no enterro, seu padastro falou alguma coisa sobre dinheiro com alguém. Pode até ser um recurso narrativo para despistar o espectador mas que ele é meio suspeito, não resta dúvida e se estiver envolvido em algo ligado diretamente ao crime, seria um pouco esperado, mas nem tanto se ajudar a ligar algumas pontas que podem levar ao assassinato.

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Em Rikers Island, o episódio tratou de desenvolver Naz, embora tenha sido um pouco previsível que o acolhimento de Calvin em um ambiente cercado de predadores seria um pouco suspeito. Durante todo esse arco, conhecemos o porquê de Freddy ter escolhido Naz, ampliando um pouco mais o background do personagem, inclusive suas motivações. Tudo isso para que no final a oferta de proteção pudesse ser aceita. Agora as coisas irão e terão de ser diferentes; a mudança de atitude de Naz no último instante o redimiu, mas ainda haverá muito o que ser feito até o julgamento.

Durante esse processo, Nasir poderá perceber que literalmente está sozinho após a queima do colchão, tendo levado uma facada e sendo hostilizado por todos. A mudança de perspectiva com a proteção solicitada não será gratuita, mas pelo menos deve lhe trazer algum benefício. E com aquele que é neste momento o único que ele pode contar, não poderá haver vacilo, vide a arrepiante cena de boxe em que ele presencia um preso ser massacrado pelo seu novo protetor. Ainda em Rikers, no final do episódio, repare na expressão mais fechada de Riz Ahmed, quando entrega Calvin. Será que será assim daqui para frente? 

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No tribunal, Naz também precisou mudar de atitude, quase tendo sido induzido por Alison Crowe a aceitar um acordo para cumprir “apenas” 15 anos. A advogada não está ali para ajudá-lo a provar sua inocência e sim, como já suspeitava-se, pelo potencial midiático e prestígio para sua firma. Um fato curioso e que, Tanto Cowe quanto Calvin, que estavam com intenções questionáveis, deram o mesmo conselho a Naz quanto a forma de se portar. Já com relação ao acordo, Jack, Freddy, Crowe…todos acharam uma loucura não aceitarem os 15 anos. É ai que pela primeira vez questionou-se o fato de Naz ser ou não culpado, através de Chandra (Amara Karan), outrora assistente e que agora será a advogada de Naz, isto é, se a família puder arcar com os custos. A breve cena de Amara e Riz Amed rendeu um dos melhores momentos do episódio, e pela primeira vez ele ouviu um conselho que fugisse do senso comum e que pudesse lhe trazer dignidade.

Os demais personagens tiveram pouco tempo de tela, mas com boas participações como Dennis Box (Bill Camp), que rechaçou Jack que tentava abordar duas amigas de Andrea no enterro, e a promotora Helen Weiss. É necessário dizer que Jeannie Berlin carrega o peso necessário a personagem, fria e intimidadora, mas que de alguma forma deixa uma pequena sensação de dúvida quanto ao caso. Glenne Headly também dá o tom acertado para a cínica Alison Crowe e pode-se dizer que muito do sucesso da série está na interpretação dos seus atores e na mão sempre certeira de Steven Zaillian, que aqui deixou a direção mas entregou nas mãos competentes de James Marsh (A Teoria de Tudo), mantendo os padrões estéticos já característicos da produção. Há de se destacar também que Amara Karan vem ganhando espaço e quem sabe não veremos mais interações entre Chandra e John Stone nos próximos episódios.

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Uma das intenções da série desde o início é deixar claro que as consequências sofridas pelo caso não se limitam ao protagonista. Desde a agressão aos muçulmanos até o caso onde absurdamente Salim e Safar são convidados a retirar Hasan do colégio, por causa do medo dos alunos. Tanto na cadeia quanto no convívio social, a sentença chega antes do julgamento e agora que a série está chegando em sua metade, a necessidade de se provar a inocência é algo que vai mexer com toda a família. Outra implicação é o fato de que mais importa que Naz saia dos holofotes por tais complicações, do que o caso continue a ganhar repercussão. Isso deixa em segundo plano sua possível inocência e continuidade da investigação, em prol de uma estabilidade social e judiciária. Quanto mais a trama avança, mais temos a impressão que isto se trata do sistema e não necessariamente do que acontece e se algo foi ou não provado.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...