Crítica | The Night Of 01×02: Subtle Beast

Forças antagônicas e um duelo de opostos marcaram o bom episódio Subtle Beast em The Night Of. Focado no dia seguinte dos acontecimentos do crime ocorrido, a série mostrou que o acontecimento serve mais como pretexto para o que se pretende contar.

O embate entre Jack Stone e Dennis Box começou a tomar forma. Além disso, o episódio pareceu focar mais nos desdobramentos da investigação para os dois do que o próprio protagonista, que nesse momento não parece ter muito o que fazer a não ser aguardar. Box, a fera sutil, tem um modo de agir bastante peculiar: se aproxima de Naz para obter as informações com gentileza, mas ao mesmo tempo é um detetive que segue seus instintos com experiência e determinação. Suas intenções com o acusado sempre visam obter alguma pista e avanço com a investigação, como quando tenta se aproximar do rapaz ou em sua atitude com os pais dele, disponibilizando um tempo para que se falem (com gravação). Com uma boa interpretação de Bill Camp, o personagem parece cansado pelo tempo mas na mesma proporção, usa de todo expertise necessário para encarar este caso, que para ele não é de natureza rara. Não é exagero dizer que, em certo ponto ele realmente quer ajudar, à sua maneira. Box nada mais é do que um bom policial, mas não o confunda com policial totalmente bom.

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Por outro lado, por mais de uma vez é mencionado que Jack por mera casualidade, tem um caso com enorme potencial em mãos. É  evidente também que após uma longa fase de advogado porta de cadeia, este caso era o que ele precisava para uma aparente combalida carreira. Ao que parece, para as pessoas não se trata de capacidade mas sim oportunidade. Stone conhece todos os trâmites do sistema, o modus operandi de Box e os demais detetives. Com uma grande dose de pragmatismo ao alertar Naz sobre sua conduta na delegacia, às vezes beirando a impaciência.

John Turturro tem em mãos um personagem com várias nuances a serem desenvolvidas, como seu relacionamento familiar e seu filho, o eczema que lhe acomete, além dos casos paralelos que precisa administrar, entre seus deslocamentos da delegacia para o tribunal, que são bem retratados entre idas e vindas de Metrô pela cidade de Nova Iorque. É até engraçado ver quando ele, sem medo de causar estranheza, saca da bolsa uma vareta para coçar o pé. Tal qual Box, Jack apresenta tons distintos pois claramente não acredita que Naz seja inocente, e isso fica evidente várias vezes, sobretudo quando diz não querer ouvir toda a verdade e que ela só é conveniente a partir de um certo ponto. Não há nesse embate um lado certo e outro errado, devido as circunstâncias.

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Aos poucos, outros elementos também foram introduzidos como a promotoria e a imprensa. Um caso com potencial midiático e apelo popular acaba sendo um prato cheio, para ambos os lados. O grande mérito da série até aqui é não se prender aos aspectos criminais e embora haja um mistério por conta do que aconteceu, as implicações serão muito maiores do que isso. Outra adição ao elenco, Paul Sparks (o Tom Yates de House of Cards) apareceu como Don Taylor, padastro de Andrea.

Aparentemente alheio aos fatos e demonstrando uma certa indiferença ao ser questionado sobre o corpo da enteada, através da conversa com Box descobriu-se um pouco mais do passado da garota, mas nada que fosse tão revelador. Com relação a ele mesmo, sempre enquadrado de uma forma meio sombria, seu comportamento e expressão poderão nos dizer algo mais adiante. Ficou evidente um ar misterioso em seu comportamento, embora seja uma característica do ator possuir uma certa inexpressividade em seus papéis, no que diz respeito a personalidade.

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Quanto a Naz, conforme já fora dito ao contrário do suspense do episódio anterior, dessa vez aconteceu  com ele o que se esperava: ser acusado do crime. Com isso, sua ida para o purgatório deverá ser o grande mote do próximo episódio, onde certamente não deveremos presenciar um lugar dos mais agradáveis, com pessoas condizentes com o local. Mais uma vez suas atitudes ingênuas entregaram a Box um pouco do que ele queria, mas durante a conversa com o detetive, pela primeira vez o acusado levantou a guarda de forma consistente. Ele nos passa a uma atitude de uma pessoa comum, assustada com aquela realidade sombria, e com isso passamos a nos identificar ainda mais.

É bom destacar que, diante de tantas evidências, pode ser uma manipulação do próprio roteiro, uma vez que tudo aponta para que ele mesmo tenha cometido o assassinato. Na outra ponta do drama estão seus pais, sofrendo todas as consequências possíveis, desde o confisco de bens em sua casa, o táxi e a situação do filho preso. Note que a maneira como os policiais chegam para cumprir o mandato é totalmente carregada de autoritarismo e nesses momentos, é impossível não se indignar como no momento em que o laptop do irmão de Naz é levado.

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Além de ótimas interpretações e mais uma direção segura de Steven Zaillian, os aspectos técnicos de The Night Of continuam sendo algo que influencia a narrativa e entrega, ao mesmo tempo, um deleite visual. Com uma belíssima fotografia, que neste episódio ficou a cargo de Igor Martinovic (que já dirigiu alguns episódios de House of Cards), e enquadramentos muito bem construídos, saímos de ambiente escuros para visuais bastante interessantes como em uma cena de  Jack nos muros da delegacia, e em contraponto, também nos muros do tribunal, a promotora Helen (Jeannie Berlin), que foi a segunda adição do elenco no episódio. Outro ponto interessante é Naz, sempre retratado fora do centro da tela, algumas vezes espremido no canto pela situação que vive, como acontece por exemplo com Box, seu gentil opressor, ainda na delegacia.

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Após esse episódio com cara de day after, The Night Of desmembrou os acontecimentos da noite anterior, preparando os vários desdobramentos que vem a seguir: mídia, justiça, aspectos culturais, políticos e sociais. Pelo menos é o que se promete, e conforme já foi mencionado, o crime serve como pano de fundo para uma ótima narrativa, mas não se perde de vista, pois queremos tanto quanto Naz, saber o que aconteceu naquela noite.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...