Crítica | Sicário: Terra de Ninguém

Temas como o combate ao narcotráfico oferecem ao cinema e televisão a possibilidade de contar boas historias,  tanto pela complexidade do tema em relação a moralidade e dualidade dos envolvidos, quanto pela tensão que o assunto naturalmente apresenta, independente da perspectiva que nos é apresentada em tela. Em Sicário, o competente diretor Denis Villeneuve (“Os Suspeitos” e “O Homem Duplicado”) conduz uma história suja e densa, nos colocando diante do ponto de vista da agente da divisão anti sequestros do FBI Kate Macer (Emily Blunt) que após uma operação policial bem sucedida, é convidada a integrar uma nova equipe, uma espécie de força tarefa.

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Kate vai trabalhar em uma operação para desmantelar um chefão do tráfico no México, com pessoas que não conhecia até então. Ela conhece Matt Graver (Josh Brolin) e Alejandro (Benicio del Toro) que são totalmente inusitados no trato com a agente: o primeiro é dono de uma canastrice peculiar e utiliza sempre o sarcasmo, deixando muitos questionamentos da protagonista no vazio. Já o segundo é fechado, frio e misterioso, o que lhe concede uma aura densa e assustadora em determinados momentos. A maneira como eles agem e se comportam em meio a essa situação escusa, assim como todo o restante da equipe, trazem um crescente incômodo para Kate ao longo do filme.

A forma como a operação é conduzida não trás grandes reviravoltas ou segue clichês do gênero. A linha narrativa é reta, e tudo vai ficando claro a medida que a trama avança, embora Kate sempre fique sem saber o que realmente  está acontecendo, assim como seu parceiro do FBI Reggie (Daniel Kaluuya), que não é tão bem desenvolvido como poderia, mas serve como único ponto de apoio e representa alguém em quem ela pode confiar. A todo momento a agente questiona o porquê de estar ali, e o espectador certamente enxerga a falta de relevância dela para tudo que se desenvolve.

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Os planos mostrados e as tomadas áreas são incríveis, lembrando em alguns momentos True Detective e Breaking Bad, obras de TV mas com viés extremamente cinematográfico. A todo momento nota-se um cuidado do competentíssimo diretor de fotografia Roger Deakins, indicado ao Oscar em 2016 por este trabalho. Utilizando muito bem elementos como a luz do dia e o por do sol, passando também por momentos escuros mas com total compressão visual. O uso das sombras e das cores tornam o filme visualmente muito bonito e o uso de locações reais, como estradas, bairros e ruas aproximam muito o longa da verossimilidade. Além disso, a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, com quem Villeneuve trabalhou no ótimo Os Suspeitos, sabe ser pontual e brutal, na medida que o filme pede, nos momentos de tensão e de violência, por exemplo.

Não se pode afirmar que Sicário é um filme de ação, pois a trama e as motivações são o que movem e prendem o espectador. Toda a movimentação em torno da operação e os métodos utilizados para tal acabam sendo o fator de maior importância. Entretanto, as cenas com maior agitação são ótimas, incluindo a sequência inicial e outra construída com uma tensão absurda, em um engarrafamento na fronteira com o México. A chegada do grupo ao país vizinho também rende um ótimos momentos e a expressão dos atores frente a situação é perfeita.

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Benicio del Toro rouba a cena, como Alejandro, embora todas as atuações estejam em um patamar elevado. Neste papel ele consegue dar o tom perfeito para o personagem, até mesmo nos momentos em que realmente vemos as coisas mais claras para o entendimento da história. Dono de um olhar vazio e furioso, podemos não concordar com as motivações do personagem, mas compreendemos a sua raiva.

Em Sicário: Terra de Ninguém, ninguém ali é preto ou branco, exceto Kate. Em um mundo como esse, onde se mata e mutila para dar recados, só se sobrevive nos mais escuros tons de cinza, precisando a todo momento cruzar a linha tênue entre o que é certo é errado, afinal de contas em uma terra de lobos você precisa se adequar para não ser devorado. 

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Pode se afirmar com toda segurança que Sicário é um ótimo filme, com ótimas interpretações, muito bem dirigido e tecnicamente apreciável. Mesmo que apresente alguns deslizes no roteiro, como uma subtrama desnecessária que acontece em alguns momentos, certamente é um daqueles filmes que se você não viu ainda, precisa assistir.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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