Crítica | House of Cards: 4º Temporada

Se havia algo que estava ruindo na terceira temporada de House of Cards era a relação de Frank (Kevin Spacey) e Claire (Robin Wright). Não a relação matrimonial, extremamente peculiar por sinal, mas a sociedade de negócios que pauta a dinâmica do casal. Ao longo da 4º temporada pode-se observar  não só o ápice desse estremecimento como também a retomada da parceria rumo a guerra total.

Claire aliás, rouba a cena neste 4º ano: deseja o poder, luta por ele e se mostra disposta a qualquer coisa para atingir seus objetivos. Durante os seis primeiros episódios, o embate do casal dá o tom, ao passo que Frank se divide entre o congresso e a corrida presidencial de 2016. Esse arco da primeira metade é totalmente distinto da parte final e nos coloca a par da relação conturbada de Claire e sua mãe, além da tentativa de atrapalhar Frank em sua campanha, chegando até a surgirem especulações sobre o fim do casamento dos dois, o que seria ruim para ele a essa altura.

Quando Underwood sofre um atentado no quarto episódio, e um perdido Donald Blythe assume a presidência de forma interina, a primeira dama da mais um passo rumo a sua articulação pelo poder. Com Blythe totalmente vulnerável, ela toma as rédeas da situação influenciando as tomadas de decisões de acordo com sua vontade e passando por cima da Secretária de Estado Catherine Durant. Dessa forma, Claire consegue fazer um acordo com Petrov, o presidente da Rússia, e para amenizar a situação ela deixa que Duranth leve o crédito publicamente da negociação. É nesse espaço de tempo que temos uma das melhores cenas da temporada. Entre alucinações e devaneios, Frank sonha com Zoe Barnes e Peter Russo, em uma ótima participação dos atores Corey Stoll e Kate Mara. Isso inclui a jornalista de cabelos curtos (a lá senhora Underwood) e Russo na mesa do presidente.

house-of-cards-season-4-claire_nYeYP7Mjm

Falando em retornos, um parentese: a série contou com aparições de personagens secundários, de forma bem pontual como no caso de Freddy,  Raymond Tusk, Janine Skorsky, o ex-presidente Garrett Walker e da repórter Kate Baldwin. Com mais tempo de tela, Tom Hammerschimdt, que agora investiga Frank  e não aparece desde as temporadas iniciais, tem uma ótima cena com o presidente quando o confronta sobre sua investigação. Ele exerce grande influencia nesta temporada, investigando a escalada de Frank ao poder e relacionando-as com as mortes de Russo e Zoe. Lucas Goodwin, ex-repórter e agora surtado em busca de vingança e Eddward Meechun (RIP), o guarda-costas fiel, ambos mortos no atentado, também tiveram bons momentos. Outros personagens secundários recorrentes como Remy, Dunbar, Jackie, Tom Yates, Seth e a novata LeAnn Harvey atuam de forma econômica mas certeira, contribuindo de forma orgânica para a narrativa.

A partir da segunda metade da temporada, conhecemos o adversário de Frank, ou melhor, os adversários, os Conway. O jovem casal é o contraponto dos Underwood: utilizam as redes sociais para se promoverem, tem dois filhos e um casamento perfeito. O interessante é notar que geralmente são retratados na claridade, reforçando ainda mais a transparência que querem transmitir e o contraponto aos vilões (ponto para a direção) ao contrário do sombrios planos em que Claire e Francis aparecem habitualmente. Will Conway, além de candidato do partido Republicano, também é governador de New York e um dos momentos mais inusitados da temporada acontece quando ele e o presidente se reúnem para discutir uma ameaça terrorista e ao invés de fazerem isso, trocam farpas e se distraem com um game no celular.

house-of-cards

Outro momento espetacular, ou para ser mais exato épico é quando Frank ameaça Duranth e confessa os crimes cometidos por ele para em seguida negar em um tom sarcástico e assustador. A tensão dessa sequência é incrível! Retirar  Catherine do caminho das prévias e finalmente alçar Claire a condição de indicada dos Democratas a vice-presidência, foi mais uma grande demonstração do modus-operandi da dupla: planejar e executar como se os mesmos nada soubessem, um cinismo maquiavélico que só os dois sabem fazer. Aliás, ser vice-presidente era um dos termos de Claire quando ainda estava às farpas com Frank. A partir do momento em que retomam a parceira, com o devido reconhecimento dele sobre a importância de sua parceira, só reforça que o protagonismo deste 4º ano foi dela. Impossível não lembrar de outros bons momentos vividos por ela, como a negociação com o líder do grupo terrorista do ICO (uma célula ficcional), do diálogo sobre filhos com a esposa de Conway e o adultério consensual com Tom Yates.

No final da temporada os Underwoods mostram o quanto estão dispostos para permanecerem no poder, e conforme a trama caminha para o desfecho, lidando com um sequestro de uma família americana (os Millers), por terroristas da ICO e com a publicação de um artigo comprometedor de Tom Hammerschimidt a três semanas da eleição, eles decidem partir para a guerra, literalmente. Assim, a cortina de fumaça para os problemas que estariam por vir foi escolhida. O interessante é que embora seja um subterfúgio que serve como referência para o próprio passado recente da história americana, a surpresa e o impacto da decisão chegam junto com a primeira quebra de quarta parede de Claire em toda a série. Sensacional! O impacto foi tamanho que consegue superar o emblemático final da segunda temporada.

HoCs4
“Nós não nos submetemos ao terror. Nós criamos o terror”.

House of Cards entregou uma ótima temporada, após um claudicante ano anterior. Em que pese algumas barrigas no roteiro, como no episódio 11 e todo o arco de Douglas, que destoa das tramas coadjuvantes quando não permanece focado no congresso, todo o cenário para uma próxima temporada está desenhado.  Que venha 2017!


Para acompanhar as publicações do Quarta Parede, siga as nossas redes sociais ou inscreva-se por e-mail para receber notificações de novos posts, logo abaixo da área de comentários ou no menu à direita!

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...